March 27, 2017

No dia 25 de Março, participei numa sessão partilhada no Festival Zen - um festival para Celebrar a Energia da Primavera, com o tema “Biodiversidade Humana e Género”, mas não quero falar desta sessão ou do festival, no entanto fez-me lembrar algo que gostava de ter escrito há imenso tempo e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Um tópico sobre as minhas interseccionalidades, sobre a minha própria vivência enquanto pessoa não-binária.

Femme Fatal

aqui escrevi sobre identidades não binárias, já aqui escrevi sobre parte da minha visão enquanto pessoa não binária, mas, e sobretudo isto, já aqui escrevi sobre privilégio. A sessão que co-apresentei no festival foi numa sala intitulada “Sala Mulher”. Foi uma vitória para mim, enquanto pessoa que se identifica como mulher poder estar naquele espaço, tal como, no dia 9 de Março estive numa mesa sobre “O que é ser Mulher?”. Porém, é aqui que reside o meu ponto. Eu identifico-me como uma mulher trans que, também é uma pessoa não binária, a minha expressão é fluída e a minha identidade corporal é muito específica do meu sentir. Este conjunto de características fazem-me pensar na própria interseccionalidade da minha identidade, no conjunto de definições justapostas e não exclusivas que preenchem o meu ser, a minha identidade, a minha pessoa… a minha presença no mundo. Com isto, terei eu menos voz em painéis como estes? Durante os mesmos levantei essa dúvida, levantei a auto crítica à minha própria existência. Sou eu merecedora dessa auto crítica? Acredito que não deveria.

Estas intersecções relembram-me a minha posição enquanto mulher, trans, não binária, femme, pansexual e anarca relacional e, com isto, fazem-me questionar se seria o meu dia a dia mais fortemente validado se mantivesse a minha leitura social enquanto homem cisgénero, heterosexual e monogâmico. Pergunto-me se o custo de me perder identitariamente valia essa leitura e privilégio? E como posso eu expressar esta minha decisão racional em ser eu própria em meios que ainda são tão pouco inclusivos a não normatividades? Será que sou “suficientemente”?

O meu pensamento é preverso nas minhas auto críticas. Preverso porque as minhas emoções são desventradas até ao infímo detalhe. Preverso porque são as mesmas dúvidas que alimentam as minhas certezas ou, pelo menos, o meu caminho. Deste modo, quando me construí enquanto pessoa que é pansexual, pessoa que é mulher, pessoa que é trans, pessoa que é não binária, pessoa que é femme, pessoa que é anarca relacional, construí a imagem social da minha própria interioridade. Construí o público do privado. Estas intersecções passaram a fazer sentido na sua existência no mundo porque deixaram de fazer parte apenas do meu círculo interior, pessoal, imaginário, emocional, sonhador, existencialista. Estas intersecções pertencem ao mundo por via da minha pessoa, por via daquilo que eu sou a cada momento, instante após instante. Estas intersecções sou eu.

Por isso, não sou homem. Não sou homem, não porque sou mulher, mas sim porque não acredito no significado de homem. Não sou mulher por justa posição a não ser homem. Não sou não binária por justa posição a não ser ambos. Sou mulher porque me identifico enquanto tal, sou mulher porque me enquadro no mesmo sistema de opressão. Sou não binária porque acredito na espacialidade do meu próprio género. Sou não binária porque não sou homem, mas acredito na minha masculinidade. Sou não binária, porque apenas sou e existo em pleno do meu ser.

Dani

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