August 30, 2015

Quando comecei a escrever este texto tinha uma linha condutora sobre o que iria expor. Escrevi e reescrevi os parágrafos seguintes, queria conseguir sentido a cada palavra. Tornou-se um texto incerto pela própria consciência e vivência do meu mundo e do que me rodeia. No entanto gostava de partilhar.

Ao longo das nossas vidas diárias enquanto seres sociais é comum aprendermos e perpetuarmos comportamentos que, muitas das vezes, não damos conta do impacto causado em nosso redor. Não pela dimensão da nossa acção em concreto, mas pelo significado acumulado que tem na construção da cultura e sociedade.

O Medo do Gato

Estar num grupo predominante em qualquer contexto torna-se um privilégio. Esta noção pode fazer sentido quando se verifica que existem elementos que possuem determinada característica, de qualquer tipo, divergente dos seus pares. O grupo maioritário exerce o seu privilégio na forma de limitar ou excluir a diferença, directa ou indirectamente, com ou sem consciência. No entanto, também nem sempre o grupo é predominante, mas sim um grupo que por via cultural e história ganha benefício pelo modo como o sistema em seu redor é construído.

Ser privilegiado, é existir sem medo. Não um medo aleatório, mas medo do sistema, da exclusão, do afastamento social e das suas repercussões a nível pessoal. Estes privilégios são de muitos tipos diferentes: sexualidade, género, etnia, cor, estrato social, saúde, entre muitos outros. Por outro lado, as limitações que o sistema apresenta não são apenas políticas, económicas e legais, mas passam pelas micro agressões diárias quando a diferença é permanentemente alvo de interpretações depreciativas. A diferença e a heterogeneidade existe e faz parte de estar vivo.

Quando escrevo os últimos três parágrafos tenho de ter consciência da minha situação para as colocar e do meu próprio privilégio social. As vivências de todos nos são diferentes e, como consequência, elas podem ou não dar-nos a possibilidade de sentir (mesmo inconscientemente) determinados momentos benéficos ou prejudiciais da sociedade. Deste modo, fazendo uma fotografia do momento em que me encontro, posso definir uma série de vantagens que possuo inerentes à minha existência: por exemplo, ser branca, Portuguesa e a viver no meu país de origem. Posso, do mesmo modo, definir uma série de contras: ser uma rapariga, ser trans e não ser normativa. Porém, existe aqui um ponto importante na minha experiência pessoal: o meu coming out “total” enquanto rapariga trans é relativamente recente. Posso falar em vivência privilegiada enquanto lida socialmente como um rapaz cisgénero? Penso (e é somente com base na minha experiência e sobre a minha experiência) que apenas parcialmente. Gozo das vantagens “apenas” e “na medida” em que não anuncio ou comunico a minha vivência pessoal em vários contextos. Deste modo, vivo um privilégio aparente, mas que interiormente funciona como uma ditadura permanente sobre a minha vida. Existo, mas não me permito existir. Assim, estas vantagens sociais apenas resultam de uma permanente gestão emocional - parafraseando “Ser privilegiado, é existir sem medo”, não gozo o privilégio por natureza, mas por vitória.

Permanentemente tenho aprendido a desconstruir-me, a entender o mundo que me rodeia e a cruzar aquilo que penso. Neste sentido, estes benefícios e barreiras são vividos de modo distinto por cada um de nós e, como é óbvio, cada um tem um impacto social e pessoal diferente. No fim, claramente todos eles contribuem para o sofrimento de vários conjuntos de pessoas. É neste ponto que penso ser-me importante focar - ganhar consciência da minha posição (não a subestimando ou sobrestimando) e contribuir para que a minha causa se torne não só a minha causa, mas uma causa transversal a todos os que, de alguma forma, sofrem opressão do sistema de que modo for.

Somos humanos, pessoas, partilhamos uma casa comum (a Terra). O sorriso, a felicidade e o bem estar de todos deveria ser a essência de existir e não uma batalha dura de conquistar.

Dani

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