A experiência de viver em plenitude com a minha identidade é uma procura permanente de estar, de poder e conseguir. A minha leitura pessoal enquanto rapariga trans foi-se complementando com a minha própria definição de que não passa de um ponto para o outro, mas passa por uma linha constituída por muitos pontos. Num registo que ao mundo parece ambíguo, num registo que a mim me parece o mais correcto. Procurar não ser um resumo de mim é um problema complexo, mas também interessante de manipular.

Homem ou Mulher?

Nas várias vezes que falo em questões identitárias conquisto mais uma vitória pessoal. Associar pontos chave da minha pessoa a um mundo binário é um exercício social permanente, porque implica remover sempre essa associação e essa marca. Isto toca em variados aspectos da minha vida. Falar de gostos, de trabalho ou de sentimentos obriga-me consecutivamente a enfatizar a minha experiência e consequente característica e procurar remover a possível conexão do binário. É um exercício linguístico interessante.

Porém, na prática e no social não é tão interessante. Não por não ter valor, mas sim porque grande parte da sociedade vive num registo que me obriga consecutivamente a explicar ponto por ponto. Dizer que não me enquadro no binário não chega, é preciso explicar o que é, o que é não sentir isso, passar pela desaprovação, sentir que sou alinhada a um pensamento de confusão ou de quem não sabe o que quer, ou quem é. Atrás disto vem a explicação do corpo, da sexualidade e no fim o julgamento a todos estes factores que me tocam. Identifico-me comigo mesma e isso deveria ser o essencial.

Na minha experiência pessoal, há uma diferença clara entre eu dizer que gosto de x ou y, ou dizer que o meu lado masculino gosta de x e o meu lado feminino de y. Isto não acontece comigo, porque estes dois lados reflectem apenas a minha pessoa e o meu gosto por x e y. Identificar-me como ele não me retira a capacidade para y, e vice versa. Por isso, quando se referem à minha pessoa como “não és homem suficiente” ou agora, em particular “não és mulher o suficiente” são premissas vazias de significado na medida em que para a minha identidade essa não é a verdadeira questão - para além da questão que levanta sobre os critérios de suficiência para ser.

Porque digo então, que sou uma rapariga trans não binária? Porque num mundo utópico, falar em rapariga, em pessoa trans, ou pessoa não binária não teria impacto social, pois seria apenas a minha identidade. No mundo real, isto não acontece - funcionamos de um modo binário. Ser rapariga trans não é exclusivo de ser não binária. Existe sobreposição na medida que o sinto. O limite de suficiência é regido pelo meu próprio conceito e como tal, é nesse espectro que me movo. Poderia falar na necessidade de enquadramento, mas novamente retorno a questão sobre a definição de enquadrar. Poderia falar na maioria, mas a definição de maioria é normalizada em cima de critérios vazios e, à luz dos contextos actuais, sem grande correspondência.

Normalizar, maioria, enquadrar, suficiência remetem-me apenas para um sistema de controlo, remetem-me apenas para um sistema carregado de valores morais sem significado e em dirupção com a própria realidade e com a própria diversidade humana. Normalizar é apenas deixar o tempo passar. Normalizar é remeter para a apatia em relação à existência no mundo. Normal não é pertencer a uma maioria de pessoas, normal é resultado de uma liberdade condicionada a um processo, a uma ideologia de existência, de superioridade. Normal, é inconscientemente perpetuar o vício do controlo. Somos a humanidade.

Dani

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