Olho para o ecrã à minha frente, várias imagens me conduzem a histórias e fins diferentes. Uns melhores, outros piores… outros indiferentes. A música soa como música, os sons da rua soam como sons da rua. A luz, essa, ligeira… soa… ligeira. Estes percursos que me atravessam o corpo a imaginação e a realidade são partes de mim, partes que coabitam no meu ser. Partes da minha existência… partes que quero preservar e permitir sentir, vivenciar.

Os meus dedos tocam o teclado, as minhas unhas pintadas brilham sob a luz que as teclas emitem, a música circula pelos meus ouvidos, a luz essa, apagada. Apenas a luz silenciada do ecrã que se apresenta à minha frente. Lá fora, o ar passa, o vento quase não existe, o calor invade a janela, propaga-se pelo chão e chega-me aos pés. A música continua, os tons fortes, as batidas, os graves, os agudos, ao seu ritmo... os meus dedos escrevem este texto. Como a mente depressa se encontra no Céu, como depressa se encontra no Inferno. Subindo e descendo entre o Paraíso e as Chamas que nos queimam a existência. Os sentimentos ambíguos. A incompatibilidade do sentir.

Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. O tecido é novo e o seu peso é acessível. Facilmente transportável. Facilmente se coloca no bolso e facilmente se esconde na carteira. Também a tela consegue cobrir uma parede por inteiro, ou até mesmo o chão de um armazém. É apenas uma tela insignificante, mas que acompanha-me por onde vou. Porém, esta tela nunca deixou de ser branca. Depois de milhares de milhões de quadros pintados, coloridos, rasgados, esfaqueados, queimados, destroçados... a tela continua a ser branca.

Com o fim do ano vêm momentos de reflexão e balanço do que foi o ano que passou. Se o ano passado sentia-me perdida na minha vivência, este ano 2018 revelou-se um ano de descobertas interiores, mudanças de paradigma e relacionamentos saudáveis.

A fonte da batalha jorra em rios de cores de cheiros vários que escorrem montanha acima. Até ao seu cume. Até ao seu cume, estes rios debitam energia como se nada mais valesse a pena. O mundo para de rodar, o sol deixa de nascer e a lua também. Ambos parados, estáticos, no céu, esperando o momento de voltar a andar, de voltar a caminhar pelos seus próprios trilhos. No cume os rios continuam a chegar, ditos, brilhantes, conhecedores. Os rios chegam, como informação que trilha por toda a espacialidade e temporalidade do infinito que se confina num espaço bastante pequeno.