Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é transformar os meus monstros interiores, os meus medos, as minhas dúvidas e as minhas incertezas. Para ser monstra é preciso visibilidade, é preciso existir, é preciso viver… por fim, é preciso realizar. Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é, também, transformar aquilo que é normal naquilo de que me quero afastar.

Hoje, dia 10, anota-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Este dia, criado em 2003, pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial de Saúde, tem como objectivo sensibilizar e prevenir o suicídio através de medidas práticas e concretas por parte dos Governos e das estruturas Institucionais. Sendo o suicídio uma das 20 maiores causas de morte no mundo, e entre os jovens dos 15 aos 29 anos, a segunda maior causa. Morrem cerca de 800 000 pessoas a cada ano, o que equivale a aproximadamente 1 pessoa a cada 40 segundos[1]. Hoje, temos um factor extra, vivemos em plena pandemia: estamos no meio de um confinamento continuado, com liberdades limitadas e com um profundo isolamento. Não podemos deixar de pensar na implicação deste factor na saúde mental das pessoas.

O sol brilha, o vento corre suave, o mar está calmo, a areia quente. Um passo, dois passos, deito-me, a toalha estendida, a sombra do chapéu. Respiro. Fecho os olhos. Adormeço. Começo a sentir o calor emanar pelas minhas costas, já não é o sol a queimar-me, sou eu a queimar o sol. O sol, aquela entidade omnipresente, nem sempre o vejo, mas está lá. Ele escuta o céu, e percorre os ouvidos. Quando não o vejo, oiço-o. Presente, ele está lá. Sinto o calor emanar pelas minhas costas, já não é o sol a queimar-me, sou eu a queimar o sol.

Hoje, 14 de julho, voltamos a celebrar, voltamos a celebrar a nossa existência e a nossa validade. Neste 14 de julho voltamos a reafirmar quem somos, voltamos a dar-nos voz, voltamos a dar-nos espaço. Uma voz que muitas vezes é ignorada, esquecida e abandonada. Uma voz que muitas vezes é desqualificada, é patologizada e invisibilizada. Um espaço que não nos incluí, que nos desprotege, que nos atira para a insegurança. Um espaço onde não pertencemos, onde não existimos. É com um sentimento de orgulho que nós nos afirmamos, que reclamamos a posse da nossa identidade e da nosso forma de estar no mundo, somos pessoas não binárias, com orgulho, com engajamento, com empoderamento. Somos.

Estamos nos primeiros dias de julho e muito aconteceu nos últimos meses. Meses que foram ricos em sensações, em reflexões, em momentos de inspiração e outros menos bons, mais desesperados, mais difíceis e mais tristes. Estar tanto tempo sem poder ver as pessoas que amamos, cuidando vínculos apenas através do ecrã é um exercício… um exercício difícil. As saudades apertam, as vontades, a ideia de transgredir o mundo. Porém, sinto que para mim estes meses foram muito importantes por várias razões. Razões que me levaram a pensar e a repensar os meus dias, as minhas capacidades, as minhas qualidades.