Acordo pela manhã, conto até três na esperança de que tenha um acordar mais ligeiro, abro os olhos. Olho em meu redor, a cama, os lençóis, a colcha… os gatos. A vida que existe nesta casa, os gatos. O relógio marca 5 da manhã, o corpo dói, o corpo sente-se cansado… a cabeça, já num pântano de existência. Prometo-me dormir mais um pouco, pelo menos até às 7… não consigo. Estou agitada, muito agitada, mas simultaneamente parada, estafada. Rebolo na cama, de um lado para o outro, grito para dentro, choro sem lágrimas. A dor intensifica. O cansaço é mortífero.

Começo este texto sem saber bem o que escrever, mas a sentir necessidade de o fazer. Talvez dar voz a mim própria, aos meus desafios, aos meus sentires. Talvez deixar gravado como estou vivendo os últimos dias e de como vivi o último ano. Talvez para mais tarde recordar, talvez para mais tarde voltar aqui. Muitas vezes os desafios são muitos e muitas vezes a solução não é clara, outras vezes não há solução. E neste rescaldo de sentimentos, não quero abafar o meu próprio grito

Sento-me na cadeira, frente ao computador. Tenho vontade de escrever, mas não sei como, sou atravessada por uma série de pensamentos, de ideias, desilusões e mal estar. Um mal estar profundo, um mal estar que não me deixa pensar de forma estruturada, que não me deixa pensar com início e fim, apenas pensar e desiludir-me, apenas pensar e querer gritar mais alto. São gritos que vêm de dentro, do meu profundo estar. Da minha eloquência de existir. Tristes e não conformes com a realidade do mundo em que pertenço e em que vivo. Porque não quero este mundo, quero outro.

Descobri-me enquanto mulher trans e não binária já após os meus 20 anos. Nada que não se tivesse manifestado mais cedo, mas simplesmente não tinha linguagem nem forma de descrever aquilo que sentia, aliás, por outro lado, sentia-me erroneamente com um problema e, um problema grave. Só nos meus 27 anos, depois de um processo intenso de desconstrução de quem eu era e daquilo que desejava para mim decidi que queria mudar o meu nome e género no cartão de cidadão.

Soam os sons dos sinos, a rua, deserta, caminha entre um ponto e outro ponto, a luz reflecte na água das poças que transitam entre as margens da calçada. Mais nada se ouve num raio próximo. Lá longe, imerso na escuridão, pequenos uivos de animais que circulam pelo seu habitat. O silêncio próximo reina.