A cada dia uma lista de tarefas, pequenas, muito pequenas: vestir, tomar pequeno almoço, tomar comprimidos, comer... vivo a passos curtos. A cada tarefa a oportunidade de descansar um pouco, fechar os olhos e deixar-me ficar. Levanto-me, com enorme arrasto, mas levanto-me para a tarefa seguinte. Às vezes até consigo fazer duas tarefas seguidas como, por exemplo, varrer a casa de banho e mudar a areia dos gatos. No fim de duas tarefas consecutivas estou pronta para mais trinta ou quarenta minutos de fechar os olhos. A dor de cabeça não para, não tem parado… constante. Sempre a moer e faz-se notar mais quando tenho momentos mais frágeis.

Estou deitada, respondendo ao apelo de escrever com toda a energia que me resta. Os músculos não respondem, a cabeça pende para o lado. Queria deitar e dormir. Queria adormecer por uns minutos apenas. Repousar apenas. As inseguranças estão a tomar conta de mim e as dificuldades a aparecer. A mente a ficar em estados alternados entre cheia e vazia. Cheia e vazia, cheia e vazia, cheia e vazia.

Hoje mirei, mirei uma luz que se vai aproximando. Estou a caminhar, devagar, mas a caminhar. É um bom princípio reconhecer algum percurso que se vá tomando, ainda que aparentemente pouco. No entanto, muitas vezes é difícil ter essa perspectiva, a doença cega-nos, deixa-nos vulneráveis ao próprio estar e à própria consciência desse mesmo estar. Sei, com alguma claridade (no momento em que escrevo estas linhas), que o percurso é lento por natureza, é cheio de altos e baixos, momentos em que se recupera e outros em que aparentemente tudo volta para trás. Neste instante reconheço esse processo.

Ontem a escuridão abateu-se sobre mim. A escuridão formou uma neblina intransponível, deixando-me sem ver qualquer vislumbre de um caminho, sem ver qualquer luz ao fundo, sem ver qualquer momento passado. Ontem, ficar melhor passou a ser apenas uma crença que me estava a servir de bengala para sobreviver. Ontem, ficar melhor era uma ideia distante, muito distante. Ontem quis desistir, cansada, extenuada, incapaz… vulnerável… quis desistir. Queria que tudo parasse, tudo se fosse embora, queria que tudo desaparecesse. Ontem. Ontem a tristeza abateu-se sobre mim. Ontem queria que o mundo deixasse de existir. Queria paz, apenas.

São quatro da tarde, o meu corpo continua estendido no sofá… imóvel, sem acção. Olho em meu redor, vejo os livros, a consola de jogos, a televisão, a máquina fotográfica, a mesa de DJing, o papel para escrever e/ou desenhar. Olho com angústia. Olho com o sentimento de que tudo aquilo não me pertence, nunca pertenceu. Nunca fez parte da minha vida. Apenas o sofá, o sofá e o escuro da sala. Só conheço duas coisas, a manta que me cobre no sofá, e os lençóis onde me deito durante a noite. Apenas isso.