Hoje, dia 30 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Doença Bipolar. Segundo a OMS, 45 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem desta doença. Este dia tem como objetivo combater o estigma social e sensibilizar para a doença que representa um desafio enorme para as pessoas portadoras, a sua família e comunidade.

Estou em casa. Há duas semanas que estou em casa. Sou uma pessoa privilegiada em relação ao meu trabalho, posso continuar a trabalhar normalmente, sem restrições em casa. Já podia fazer teletrabalho antes, se precisasse. A diferença é que estarei mais tempo, muito mais tempo do que num regime normal em que peço para trabalhar de casa. Porém tenho todas as comodidades que poderia ter. Trabalhar na área de engenharia de software dá-nos esta vantagem. Um privilégio. Infelizmente, não é este o caso de muitas pessoas, imensas pessoas.

Hoje é um dia de sororidade. Um dia em que nos juntamos para gritar bem alto que queremos uma vida digna. É um dia de todas nós. Queremos mostrar que estamos juntas nesta luta constante, diária e sem fim. Queremos e merecemos o espaço público, queremos e merecemos o direito a viver. Não queremos flores, queremos não sofrer violência constantemente. Não queremos flores, queremos que as nossas vozes sejam ouvidas. Queremos...

Tinha aproximadamente 28 anos. Foi a minha primeira consulta de sexologia. Sentia-me ansiosa, muito ansiosa. Durante os anos anteriores, tive diversas crises identitárias, de momento para momento, sentia que teria de mudar para me sentir bem. Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.

São seis e meia da manhã, o despertador toca… já há meia hora que esperava que tocasse. Saborear os lençóis e o descanso até decidir que era hora de levantar. São sete da manhã, o despertador toca… continuo deitada, sinto-me embalada a pensar em como será o novo dia. São sete e meia da manhã, o despertador toca… é hora de saltar fora dos lençóis, o novo dia está aí… perto, muito perto, à distância de um salto, à distância de um piscar de olhos. São oito menos vinte, estou completamente desperta. Quando digo completamente é com a energia de quem está em plena maratona… fazendo um sprint deixando tudo para trás. Deixando as árvores, as estradas, as rochas, os penhascos, a praia e o mar… tudo fica longe rapidamente.