Hoje, 14 de julho, voltamos a celebrar, voltamos a celebrar a nossa existência e a nossa validade. Neste 14 de julho voltamos a reafirmar quem somos, voltamos a dar-nos voz, voltamos a dar-nos espaço. Uma voz que muitas vezes é ignorada, esquecida e abandonada. Uma voz que muitas vezes é desqualificada, é patologizada e invisibilizada. Um espaço que não nos incluí, que nos desprotege, que nos atira para a insegurança. Um espaço onde não pertencemos, onde não existimos. É com um sentimento de orgulho que nós nos afirmamos, que reclamamos a posse da nossa identidade e da nosso forma de estar no mundo, somos pessoas não binárias, com orgulho, com engajamento, com empoderamento. Somos.

Hoje, 28 de Junho, assinala-se os 51 anos dos tumultos de Stonewall e 50 anos de comemorações do Orgulho LGBTIQA+. A história é conhecida, porém é também, muitas vezes, interpretada, e desqualificada. A visibilidade consequente desse mesmo processo de afirmação continua a ter bastantes lacunas, bastantes leituras erróneas. Estamos a falar da desqualificação de pessoas trans, travestis, butch, femme, negras, migradas, trabalhadoras do sexo, precárias,... Estamos a falar de um desqualificação que até hoje não teve a devida visibilidade histórica a que tanto nos referimos. Continua a não haver representatividade para estas pessoas, estavam e continuam na margem.

Hoje é dia 31 de Março, Dia Internacional da Visibilidade Trans. Este dia comemora-se desde 2009 com o objetivo de celebrar positivamente todas a comunidade. Projetando, assim, a visibilidade e histórias positivas. É um dia importante para a consciência de que nós existimos, de que fazemos parte, que merecemos vidas dignas e que queremos ser livres das amarras de um sistema que nos condiciona em todas as frentes.

Hoje é um dia de sororidade. Um dia em que nos juntamos para gritar bem alto que queremos uma vida digna. É um dia de todas nós. Queremos mostrar que estamos juntas nesta luta constante, diária e sem fim. Queremos e merecemos o espaço público, queremos e merecemos o direito a viver. Não queremos flores, queremos não sofrer violência constantemente. Não queremos flores, queremos que as nossas vozes sejam ouvidas. Queremos...

Tinha aproximadamente 28 anos. Foi a minha primeira consulta de sexologia. Sentia-me ansiosa, muito ansiosa. Durante os anos anteriores, tive diversas crises identitárias, de momento para momento, sentia que teria de mudar para me sentir bem. Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.