Estamos nos primeiros dias de julho e muito aconteceu nos últimos meses. Meses que foram ricos em sensações, em reflexões, em momentos de inspiração e outros menos bons, mais desesperados, mais difíceis e mais tristes. Estar tanto tempo sem poder ver as pessoas que amamos, cuidando vínculos apenas através do ecrã é um exercício… um exercício difícil. As saudades apertam, as vontades, a ideia de transgredir o mundo. Porém, sinto que para mim estes meses foram muito importantes por várias razões. Razões que me levaram a pensar e a repensar os meus dias, as minhas capacidades, as minhas qualidades.

Acordo, olho o relógio, são meia noite e trinta. São uma, adormeço… Acordo, olho o relógio, são duas e trinta. São três, adormeço… Acordo, olho o relógio, são quatro e trinta. São cinco, adormeço… O despertador toca, são seis e trinta… acordo, viro-me na cama, espero pelas sete, e pelas sete e trinta… levanto-me. Preparo-me para mais um dia, mais um dia longo, um longo dia.

Hoje, dia 30 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Doença Bipolar. Segundo a OMS, 45 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem desta doença. Este dia tem como objetivo combater o estigma social e sensibilizar para a doença que representa um desafio enorme para as pessoas portadoras, a sua família e comunidade.

Tinha aproximadamente 28 anos. Foi a minha primeira consulta de sexologia. Sentia-me ansiosa, muito ansiosa. Durante os anos anteriores, tive diversas crises identitárias, de momento para momento, sentia que teria de mudar para me sentir bem. Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.

São seis e meia da manhã, o despertador toca… já há meia hora que esperava que tocasse. Saborear os lençóis e o descanso até decidir que era hora de levantar. São sete da manhã, o despertador toca… continuo deitada, sinto-me embalada a pensar em como será o novo dia. São sete e meia da manhã, o despertador toca… é hora de saltar fora dos lençóis, o novo dia está aí… perto, muito perto, à distância de um salto, à distância de um piscar de olhos. São oito menos vinte, estou completamente desperta. Quando digo completamente é com a energia de quem está em plena maratona… fazendo um sprint deixando tudo para trás. Deixando as árvores, as estradas, as rochas, os penhascos, a praia e o mar… tudo fica longe rapidamente.