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Estados Limítrofes

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 12 de julho de 2020 · 5 mins read
Estados Limítrofes
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Estamos nos primeiros dias de julho e muito aconteceu nos últimos meses. Meses que foram ricos em sensações, em reflexões, em momentos de inspiração e outros menos bons, mais desesperados, mais difíceis e mais tristes. Estar tanto tempo sem poder ver as pessoas que amamos, cuidando vínculos apenas através do ecrã é um exercício… um exercício difícil. As saudades apertam, as vontades, a ideia de transgredir o mundo. Porém, sinto que para mim estes meses foram muito importantes por várias razões. Razões que me levaram a pensar e a repensar os meus dias, as minhas capacidades, as minhas qualidades.

No dia 13 de maio, escrevia este excerto de texto… um pedaço de palavras que nunca viu a luz até hoje:

Era dia, era manhã. Era hora de levantar. Apita o despertador, é tempo de levantar, fazer as tarefas da manhã. Sentar-me à secretária e começar o meu dia de trabalho. Toca as dez horas da manhã, é tempo de parar quinze minutos. Ir até à varanda, dar duas festas em cada gato. São dez e quinze, de volta à secretária. O dia seguinte repete o anterior e o dia anterior repete o futuro. A seta do tempo move-se para os dois lados, frente trás, trás frente… tudo é similar. Os gatos dormem, eu trabalho, eu durmo e os gatos acordam. A música preenche o espaço vazio da sala. A fotografia remete-me para momentos de indecisão. Espero, conto até três, nada.

Pergunto-me, até quando? Até quando, até quando os gatos, a música e a fotografia. Até quando a janela vazia, a porta fechada, a refeição singular. Até quando a tigela de cereais, a lista de tarefas e o calendário. Um calendário vazio, rotineiro, com uma hora de entrada e uma hora de saída. Apenas um calendário que espera ser mexido, enchido e rasgado. Um calendário escrito por mãos, preenchido pelo vento.

As horas passam, o cansaço toma conta de mim. O cansaço da apatia, ou talvez não… talvez do silêncio. Um silêncio que remexe as entranhas, que rodopia o pensamento. Não me sinto activa, não me sinto estimulada, não me sinto… como que, em linha. A actividade é lançada por um eterno ciclo que vai de mim para mim. O estímulo que passa da minha mente, para as listas e novamente para mim. Um sentir que é vazio, sem tacto, sem proximidade.

Este silêncio que é abandono, esta apatia que é desprezo. O telefone toca: é alarme; O telefone toca: é banco; O telefone toca: é serviço de internet. O telefone… silêncio. Chamo de volta: dou a contagem do gás. Chamo de volta: digo que não estou interessada na última campanha. Chamo de volta: não há por onde chamar de volta. Resta-me continuar a tentar.

Este texto, que nunca chegou a ser acabado, retrata um estado de ânimo concreto, particular. Retrata uma incerteza no futuro, uma incerteza no presente e, também ela no passado.

Momentos que, muitas vezes, são precisos sentir, absorver, viver e receber com carinho.
Momentos esses onde por vezes a criatividade cresce e decresce como um pulsar contínuo.
Momentos esses que desejo abraçar.

Durante os meses que passaram, abriu-se um grande espaço de reflexão interna, de autoconhecimento, de aprendizagem e de preservação pessoal. Muitas destas reflexões caminham a meu lado desde a minha última crise: como manter a minha estabilidade e a mente sã, como manter a motivação e a energia? Um trabalho que foi sendo feito durante meses. Já estive em outros momentos de estabilidade que reflecti em assuntos similares, porém sinto que desta vez fui mais fundo e mais profundo. Sinto que desta vez toquei em pontos nevrálgicos, pontos estruturantes para a minha identidade (de um modo transversal).

Escrevo este texto através da calma que cada palavra me transmite, que cada palavra me ecoa, que cada palavra me provoca. Uma calma, ela subtil no essencial, mas pronunciada no acessório. É neste mecanismo essencial versus acessório que procuro encontrar o meu mundo e a minha própria realidade. Um mecanismo que sustenta a unicidade de um ser e de uma vida. É também responsável pela consistência, pela existência e pela complexidade de existir e viver.

A fronteira entre a minha sanidade e a minha loucura é limítrofe, é potenciada pelo desejo de ficar bem e pelo desejo de viver a loucura. Uma loucura que se alimenta de toda a energia que o meu corpo é capaz de dar, e um desejo de viver em ruptura com o desejo de parar e desistir. É neste processo limite que rasgo a minha solidez, levanto os pés do chão e procuro outros estares. É neste processo limite que contorno as lógicas internas de auto-protecção e me junto à minha própria descredibilização. É neste momento processo limite que faço o inverso, conecto-me às minhas lógicas de cuidado e procuro a minha credibilização. São estados dúbios, retro-alimentados. Mas ela está lá sempre, se não tenho cuidado, ela está lá sempre.

Os processos limítrofes são realidades também eles fronteiriços, são realidades que nos remetem a perda de identidade, ao lugar algum de lugar nenhum. Uma fronteira intransponível pelo exterior, mas conectada internamente pelo núcleo da minha existência. Porque a minha essência é um limite que está para além dos limites, a minha essência é ser quem sou, apenas isso. Uma materialização dos meus desejos, das minhas aventuras, dos meus passos.

É nessa região que me entendo a crescer, a sentir-me mais forte, a estar consistente na dúvida.

A cada dia uma vitória, uma conquista, uma certeza que estou a caminhar, que estou a passar obstáculos, que estou a conseguir não só sobreviver, mas também viver. A música preenche as minhas teclas, as imagens que as melodias me transmitem transformam-se em palavras, a realidade que me cerca consagra a vivência, a alma e a acção.

Fecho os olhos e deixo-me levar por esta felicidade que me abraça, que me protege, que me quer. Uma felicidade única, um felicidade ancorada no crescimento, na luta, na conquista e no estímulo.
Fecho os olhos e deixo-me levar pelo encantamento dos meus sentires, dos meus estares, as minhas emoções. Um encantamento que me permite sonhar, sentir o futuro, o presente e o passado.
Fecho os olhos e deixo-me, simplesmente deixo-me… porque estou segura, estou confiante, estou capaz. Uma segurança que nasce do meu centro, da minha essência, do meu corpo.

Estou,
Estou feliz, segura…

Dani

Imagem: Invitée - Vicent Noel

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica