Numa tentativa de agregar alguns textos antigos, aqui fica alguns que estavam presentes num antigo blogue meu:

Desmentir uma Verdade Social - A pureza de uma sociedade que erra pelo que está certo e sente o que está certo por pensar erradamente

Aqui fica o primeiro: #001 - Velharias e Artefactos - Usados e Novos

[Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007]

#001 - Velharias e Artefactos - Usados e Novos

Escrever este artigo ou, até mesmo, construir este blogue, nasceu de uma ideia que tive enquanto viajava num comboio suburbano para Lisboa. Pensar enquanto se viaja é sempre bom, independentemente do tipo de pensamentos. Há sempre conclusões e ideias interessantes e curiosas que se obtêm. Depois disso, depende de cada um o modo como se constrói ou se vive algo pensado.

A minha observação foi bastante simples, mas eficaz o suficiente para gerar um raciocínio mais ou menos interessante sobre algumas opiniões que as pessoas têm em relação ao que “se usa”.

Geralmente, muitas pessoas têm um pensamento que eu já tive muita vez, mas que nunca pensei realmente na questão. Pergunta-se vulgarmente, à voz do povo, “porque raio temos nós de andar sempre em velharias… porque é que andamos em comboios reles… ou autocarros reles…” entre outro tipo de comentários do género. As questões têm a sua lógica de ser. Primeiro, existe o factor de comparação e depois existe a questão do conforto. Será ao contrário? Não, julgo que não, pelo menos na maioria das pessoas. Mas depois existe o erro de não pensar no porquê, mas sim, apenas no interesse pessoal. Passo a explicar estas afirmações anteriores.

Como toda a gente sabe, o ser humano é uma espécie que está em constante contacto com o mundo que o rodeia. É fácil reparar nisso, até porque é fácil entender que nós somos uma espécie totalmente dependente da nossa própria espécie. Confuso? Mais directo, não há humano que não precise de outro humano. Onde entra isto? Entra no factor de comparação. Muitos dos nossos movimentos diários são baseados em factores de comparação com os membros da nossa sociedade chegada. A educação que recebemos é baseada num factor comparativo sobre o que é melhor para o crescimento. É com base em enormes factores de comparação que o ser humano se desenvolve. É comparando o próprio com o outro que o ser tende a perceber o que está bem, mal ou neutro. Por mais que tentemos negar, é impossível viver de outra forma. Nós pedimos determinadas condições não porque já sabemos que é melhor, mas porque estudamos através do movimento de outras pessoas que realmente essas condições afectam de modo muito mais positivo a pessoa. Seguidamente, voltando à questão, então vem o plano conforto, que depende directamente do factor comparação intra-pessoal e inter-pessoal. É também, deste modo, que distinguimos os inventores dos utilizadores. Os inventores conseguem de algum modo atingir o plano conforto sem necessitar de uma comparação inter-pessoal. Estimam e procuram adaptar o seu próprio conforto e submeter-se às experiências de uma nova utilização para verificar se realmente há mais conforto. Mas de qualquer modo, precisam de uma comparação intra-pessoal entre experiências. Por outro lado, um utilizador distingue-se pela sua utilização maioritariamente inter-pessoal (não digo desta forma que a experiência é apenas inter-pessoal), o utilizador vê nas invenções o produto acabado e verificado que existe de facto um maior conforto na pessoa que inventou e nas pessoas que já utilizam, só depois se submete ao factor intra-pessoal de comparar ele mesmo com experiências anteriores. É por estas razões que afirmo que o factor conforto vem sempre após o factor comparativo.

O que isto, na realidade, tem a ver com o uso de velharias e artefactos no activo social? Simples… O mundo é diversificado ao ponto que para além do facto de as pessoas experimentarem diferentemente, os objectos que usam também são diferentes. O que acontece é que existirá sempre alguém que ao usar algo pensará sempre que outra pessoa terá algo melhor para usar e, consequentemente, anda melhor. Quando andamos num comboio, pensamos sempre nos utilizadores de comboios que têm experiências mais confortáveis que nós. É directo pensarmos isso. O facto é que nós não conhecemos o nível de conforto, mas simplesmente ao comparar-mos, já estamos a criar algo a que posso chamar “nível de conforto”. Existem muitas aplicações deste pensamento, não só ao comboio mas como a outros meios como, carros, autocarros, camiões, entre outras coisas que não transportes públicos.

Tem lógica as pessoas quererem usar objectos, utensílios confortáveis mas é necessário também analisar as questões. Por exemplo, ao invés de fazer comparações com outras situações a nível de conforto, porque não a nível de tempo? ou a nível económico? Isto é, quem faz viagens de 5 minutos não precisa, de modo algum, do mesmo conforto num comboio do que alguém que faz viagens de 30 ou mais minutos. Ir em pé 2 minutos num autocarro não é nada, ao passo que ir 2 horas de viagem em pé é. Por outro lado temos a economia. Definitivamente não é lógico para uma empresa que não é muito rica, fazer investimentos acima de tudo no conforto e perder, de algum modo, o número de serviços que pode prestar ao longo do dia. Não tem lógica, neste caso em Portugal, investir-se em transportes de alta categoria para viagens curtas, como urbanas e à custa disso, ter de diminuir o número de transportes possíveis de haver durante o dia. Da mesma maneira, não se vai deitar, neste caso, comboios para o lixo. Até não poderem andar, alguém vai usá-los. É bastante lógico que esses comboios são restaurados até um limite de orçamento e são colocados a fazer serviços curtos e rápidos. Futuramente, teremos comboios super velozes, mas talvez teremos alfa-pendulares a fazer serviço urbano, porque no resto dos percursos teremos algo muito mais confortável e rápido. Mas neste momento temos os alfa-pendulares para grandes viagens, não os vamos colocar também nos trajectos de 5 Km.

É, acima de tudo, essencial saber analisar as questões e perceber as coisas no sentido em que elas conseguem beneficiar todos e não apenas um sector. Por outro lado, este texto serviu também um pouco para discutir a diferença entre factores comparativos e de conforto nestas questões.

Daniel Bento

Ano 2019, em revisão...

Com o fim do ano vêm **momentos de reflexão e balanço** do que foi o ano que passou. Escrevia o ano passado, no primeiro dia de janeiro:>...… Continue reading

A luz

Published on December 17, 2018

Eram uns dias de sol...

Published on November 16, 2018