Já passa das 24h. Não é tarde, mas também não é cedo. Escrevo porque estou triste, escrevo porque preciso de escrever. Escrevo porque me entristece, escrevo porque me esvazia, escrevo porque me limpa a alma. Estou melancólica, a música não está certa, a luz está errada, os pequenos passeiam-se pela luz fusca da noite, brincam, celebram os seus momentos de paixão mútua. Alegra-me ver os pequenos - ainda que me me venham de vez em quando roubar as bolachas de milho - alegra-me.

Relógio de Bolso

Conto os segundos, os minutos e as horas. O cansaço apodera-se de mim, mas não a vontade de dormir. Há dias em que, para mim, dormir significa pânico, hoje é um desses dias. Inconsistente, vazia. Procuro nas minhas listas infindáveis aquela onde eu pertenço. Procuro-me, para me tentar desencontrar. Ser quem não sou, quero ser quem não sou - procurar ir para onde não quero ir, sair do meu destino e caminhar por onde nunca quis estar. Procuro-me nas curvas para me achar nos caminhos direitos, mas encaixo-me nas contracurvas para me reencontrar fora da estrada. A música passa e as palavras vão-me deixando de fazer sentido… será que o sono está a vir? Ainda não me parece. O sono pertence ao meu caminho e eu estou fora dele. É assim possível imaginar… fora dele.

Escrevo porque preciso escrever, não escrevo porque quero ter sentido, escrevo em tom de desabafo, não escrevo porque tenciono reflectir, escrevo em tom de incereza porque não tenciono certificar. O peso de cada letra reflecte a sua própria perfomance na sociedade, interpretações, movimentos, ideias, imaginações, realidades e irrealidades - o peso de cada letra perde-se na sua origem, na sua função primária, no seu intuito - traduzir-me… traduzir-me no momento, no instante.

A palavra é performativa, o escrever e o falar são performativos, fruto do eu comigo e do eu com o exterior. A palavra é vazia quando vazia está - mas cheia quando, ainda que vazia, lhe dão conteúdo. A palavra é só isso - conteúdo - partes de um contexto, partes de uma alguém, algures, em viagem.

O meu caminho percorre-se de palavras, de curvas e contracurvas, de vontades e querer. O meu caminho percorre-se também de frustração, de desespero, de questionamento, de quedas, de dor e sofrimento. O meu caminho é completo, é contínuo, manchado, sujo, suado. É tudo… tudo. Enche-se o meu coração quando o meu caminho é dito limpo, consciente, definido, enche-se o meu coração quando o meu caminho é lido eficaz, perspicaz, capaz. Enche-se me o coração quando o meu caminho é afirmado, como um caminho.

Neste momento o cansaço consome-me e, com isso, a minha vontade. Neste momento o cansaço mata-me e, com isso, o meu capaz. Neste momento o cansaço devora-me e, com isso, a minha força. Quero dar mais um passo, mas escorrego dois na direcção oposta, quero segurar-me, mas caio cada vez mais. Quero… mas não quero. Será que eu quero sequer ter um caminho? Será que o caminho quer sequer que eu o percorra? Em que ponto nos tocamos? Em que ponto nos cruzamos?

Não é tarde, mas também não é cedo. São momentos, são convalescências e reentradas no mundo. Porque também preciso existir, porque quero existir, porque existo. Cada palavra, um suspiro.

Dani

Começar e recomeçar do (zero)

Sentada à secretária, **os meus dois pequenos vagueiam pela sala** e, agora deitados, olham para mim na escuridão da sala. *Luz fusca que...… Continue reading

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