Estas últimas semanas têm sido emocionalmente poderosas. Durante a última semana estive num training em Itália, no meio da floresta, longe da comunicação diária a que estou sujeita. Apenas, e só, com todos os elementos do grupo que estavam presentes. Pessoas de várias nacionalidades. Tocou-me a facilidade de troca de experiências que aconteceu, tocou-me poder falar de mim sem receios, tocou-me poder expressar os meus sentimentos em relação a várias questões sem ser julgada... mesmo sendo um espaço com diferentes pessoas - senti-me segura como não me sentia há muito tempo num espaço misto. Aproveitei também para ter os meus próprios momentos de reflexão. Uma das coisas que achei bastante positiva foi que, apesar de os dias serem bem estruturados numa vivência comunitária, me foi possível ter o meu espaço próprio onde podia canalizar as minhas energias e repensar em muitas questões do meu dia a dia.

Queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê... tenho um bloco cheio de notas com textos e assuntos que gostava de desenvolver, porém, a minha falta de criatividade tem dificultado esta tarefa. No entanto, todos os dias acontecem-nos coisas e, muitas vezes, são essas mesmas situações que nos levam a desenvolver o nosso lado emocional e criativo. E, a propósito dos vários trajectos que tenho feito, a veracidade é um dos denominadores comuns de quase todas as partes desse percurso. A veracidade no seu sentido lato, construído e assimilado. Uma veracidade que interroga a minha própria existência no mundo, como se existir não fosse suficiente.

No dia 25 de Março, participei numa sessão partilhada no Festival Zen - um festival para Celebrar a Energia da Primavera, com o tema "Biodiversidade Humana e Género", mas não quero falar desta sessão ou do festival, no entanto fez-me lembrar algo que gostava de ter escrito há imenso tempo e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Um tópico sobre as minhas interseccionalidades, sobre a minha própria vivência enquanto pessoa não-binária.

Existem muitos momentos que não podemos controlar, existem muitos momentos que não podemos decidir. Existem, também, momentos em que apenas podemos gerir os danos que nos são causados directa ou indirectamente, conscientes ou inconscientes. Momentos em que precisamos de reforçar as nossas energias, o nosso bem estar e reencontrar-nos novamente num mundo que está sem luz e calor. Nesses tempos existe a noção que queremos desistir, que necessitamos parar a realidade e parar tudo o que nos rodeia. São momentos - passados - num mundo frio e escuro.

A experiência de viver em plenitude com a minha identidade é uma procura permanente de estar, de poder e conseguir. A minha leitura pessoal enquanto rapariga trans foi-se complementando com a minha própria definição de que não passa de um ponto para o outro, mas passa por uma linha constituída por muitos pontos. Num registo que ao mundo parece ambíguo, num registo que a mim me parece o mais correcto. Procurar não ser um resumo de mim é um problema complexo, mas também interessante de manipular.