Acordo, olho o relógio, são meia noite e trinta. São uma, adormeço… Acordo, olho o relógio, são duas e trinta. São três, adormeço… Acordo, olho o relógio, são quatro e trinta. São cinco, adormeço… O despertador toca, são seis e trinta… acordo, viro-me na cama, espero pelas sete, e pelas sete e trinta… levanto-me. Preparo-me para mais um dia, mais um dia longo, um longo dia.

Tinha aproximadamente 28 anos. Foi a minha primeira consulta de sexologia. Sentia-me ansiosa, muito ansiosa. Durante os anos anteriores, tive diversas crises identitárias, de momento para momento, sentia que teria de mudar para me sentir bem. Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.

São seis e meia da manhã, o despertador toca… já há meia hora que esperava que tocasse. Saborear os lençóis e o descanso até decidir que era hora de levantar. São sete da manhã, o despertador toca… continuo deitada, sinto-me embalada a pensar em como será o novo dia. São sete e meia da manhã, o despertador toca… é hora de saltar fora dos lençóis, o novo dia está aí… perto, muito perto, à distância de um salto, à distância de um piscar de olhos. São oito menos vinte, estou completamente desperta. Quando digo completamente é com a energia de quem está em plena maratona… fazendo um sprint deixando tudo para trás. Deixando as árvores, as estradas, as rochas, os penhascos, a praia e o mar… tudo fica longe rapidamente.

Hoje acordei de manhã com vontade de escrever, não aqui, mas nos meus cadernos. Uma vontade súbita de transcrever uma série de sentimentos que me atingiam a alma. Perguntas, respostas, incertezas, certezas e sentires. Tudo cabe nestas linhas, neste papel, nestas letras. Durante aqueles minutos, a caneta era a minha melhor companhia, não questionava, não dava a sua opinião, apenas deixa-se ouvir e transcrever o meu pensamento em linhas umas vezes tortas, outras vezes direitas, palavras que no futuro vou entender e algumas que no futuro, certamente, não vou conseguir decifrar. Na incerteza, escrevo na mesma.

São quase oito da noite, já jantei e já fiz quase todas as tarefas que me tinha comprometido a fazer hoje. No que resta do dia ainda acabo o que falta fazer. Não são muitas, mas as suficientes para me manter ocupada até começar a preparar o sono. O sono esse, finalmente, parece estar a ficar regulado, há uma semana que durmo relativamente bem. Foi um processo difícil de acertar com as medidas certas para me proporcionar um descanso mais efectivo. Dormi bem, hoje acabei por ter um dia relativamente tranquilo e calmo. Sem pesares ou tristezas.