Sento-me na cadeira, frente ao computador. Tenho vontade de escrever, mas não sei como, sou atravessada por uma série de pensamentos, de ideias, desilusões e mal estar. Um mal estar profundo, um mal estar que não me deixa pensar de forma estruturada, que não me deixa pensar com início e fim, apenas pensar e desiludir-me, apenas pensar e querer gritar mais alto. São gritos que vêm de dentro, do meu profundo estar. Da minha eloquência de existir. Tristes e não conformes com a realidade do mundo em que pertenço e em que vivo. Porque não quero este mundo, quero outro.

Descobri-me enquanto mulher trans e não binária já após os meus 20 anos. Nada que não se tivesse manifestado mais cedo, mas simplesmente não tinha linguagem nem forma de descrever aquilo que sentia, aliás, por outro lado, sentia-me erroneamente com um problema e, um problema grave. Só nos meus 27 anos, depois de um processo intenso de desconstrução de quem eu era e daquilo que desejava para mim decidi que queria mudar o meu nome e género no cartão de cidadão.