Hoje é dia 31 de Março, Dia Internacional da Visibilidade Trans. Este dia comemora-se desde 2009 com o objetivo de celebrar positivamente todas a comunidade. Projetando, assim, a visibilidade e histórias positivas. É um dia importante para a consciência de que nós existimos, de que fazemos parte, que merecemos vidas dignas e que queremos ser livres das amarras de um sistema que nos condiciona em todas as frentes.

Estou em casa. Há duas semanas que estou em casa. Sou uma pessoa privilegiada em relação ao meu trabalho, posso continuar a trabalhar normalmente, sem restrições em casa. Já podia fazer teletrabalho antes, se precisasse. A diferença é que estarei mais tempo, muito mais tempo do que num regime normal em que peço para trabalhar de casa. Porém tenho todas as comodidades que poderia ter. Trabalhar na área de engenharia de software dá-nos esta vantagem. Um privilégio. Infelizmente, não é este o caso de muitas pessoas, imensas pessoas.

Hoje é um dia de sororidade. Um dia em que nos juntamos para gritar bem alto que queremos uma vida digna. É um dia de todas nós. Queremos mostrar que estamos juntas nesta luta constante, diária e sem fim. Queremos e merecemos o espaço público, queremos e merecemos o direito a viver. Não queremos flores, queremos não sofrer violência constantemente. Não queremos flores, queremos que as nossas vozes sejam ouvidas. Queremos...

Sento-me na cadeira, frente ao computador. Tenho vontade de escrever, mas não sei como, sou atravessada por uma série de pensamentos, de ideias, desilusões e mal estar. Um mal estar profundo, um mal estar que não me deixa pensar de forma estruturada, que não me deixa pensar com início e fim, apenas pensar e desiludir-me, apenas pensar e querer gritar mais alto. São gritos que vêm de dentro, do meu profundo estar. Da minha eloquência de existir. Tristes e não conformes com a realidade do mundo em que pertenço e em que vivo. Porque não quero este mundo, quero outro.

Descobri-me enquanto mulher trans e não binária já após os meus 20 anos. Nada que não se tivesse manifestado mais cedo, mas simplesmente não tinha linguagem nem forma de descrever aquilo que sentia, aliás, por outro lado, sentia-me erroneamente com um problema e, um problema grave. Só nos meus 27 anos, depois de um processo intenso de desconstrução de quem eu era e daquilo que desejava para mim decidi que queria mudar o meu nome e género no cartão de cidadão.