Os meus dedos tocam o teclado, as minhas unhas pintadas brilham sob a luz que as teclas emitem, a música circula pelos meus ouvidos, a luz essa, apagada. Apenas a luz silenciada do ecrã que se apresenta à minha frente. Lá fora, o ar passa, o vento quase não existe, o calor invade a janela, propaga-se pelo chão e chega-me aos pés. A música continua, os tons fortes, as batidas, os graves, os agudos, ao seu ritmo... os meus dedos escrevem este texto. Como a mente depressa se encontra no Céu, como depressa se encontra no Inferno. Subindo e descendo entre o Paraíso e as Chamas que nos queimam a existência. Os sentimentos ambíguos. A incompatibilidade do sentir.

Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. O tecido é novo e o seu peso é acessível. Facilmente transportável. Facilmente se coloca no bolso e facilmente se esconde na carteira. Também a tela consegue cobrir uma parede por inteiro, ou até mesmo o chão de um armazém. É apenas uma tela insignificante, mas que acompanha-me por onde vou. Porém, esta tela nunca deixou de ser branca. Depois de milhares de milhões de quadros pintados, coloridos, rasgados, esfaqueados, queimados, destroçados... a tela continua a ser branca.