É sexta feira, estou-me a sentir mal. Tenho dificuldades em estar no trabalho, arrasto-me para as aulas ao fim do dia. Começo a sentir-me desligar. Chego a casa, deito-me, fico. No fim de semana que se segue, deito-me, fico. Apática, sem vontade de qualquer acção arrasto-me em pequenas actividades para procurar estar melhor. Falo pouco, a vontade é pouca. Procuro o isolamento. Uma quebra que deveria estar a germinar há algum tempo, mas aconteceu. Nos dias seguintes acontece tudo muito rápido, começo a ter ataques de ansiedade, a viajar no tempo, a deslocar-me da realidade. Perco a capacidade de executar quaisquer das minhas tarefa. Estou a cair. Foi assim que aconteceu há pouco mais de um mês.

As noites. As noites, as manhãs e as tardes. Mas as noites, o entardecer, o anoitecer. Tudo parece um pouco mais lento. Tudo parece se estar a preparar para uma noite de descanso. Excepto eu. Olho para a janela, olho as estrelas numa noite cheia de nuvens, olho para a Lua quando ela se esconde por entre as árvores. A minha mente salta entre as estrelas e a Lua. Salta entre a escuridão e a pequena luz que ilumina a minha sala. Salta entre a terra e o céu. A minha mente salta. Por entre as folhas das árvores, os meus pensamentos fogem e entorpecem a minha capacidade de estar consciente. A minha mente continua a saltar.

A cada dia uma lista de tarefas, pequenas, muito pequenas: vestir, tomar pequeno almoço, tomar comprimidos, comer... vivo a passos curtos. A cada tarefa a oportunidade de descansar um pouco, fechar os olhos e deixar-me ficar. Levanto-me, com enorme arrasto, mas levanto-me para a tarefa seguinte. Às vezes até consigo fazer duas tarefas seguidas como, por exemplo, varrer a casa de banho e mudar a areia dos gatos. No fim de duas tarefas consecutivas estou pronta para mais trinta ou quarenta minutos de fechar os olhos. A dor de cabeça não para, não tem parado… constante. Sempre a moer e faz-se notar mais quando tenho momentos mais frágeis.

Estou deitada, respondendo ao apelo de escrever com toda a energia que me resta. Os músculos não respondem, a cabeça pende para o lado. Queria deitar e dormir. Queria adormecer por uns minutos apenas. Repousar apenas. As inseguranças estão a tomar conta de mim e as dificuldades a aparecer. A mente a ficar em estados alternados entre cheia e vazia. Cheia e vazia, cheia e vazia, cheia e vazia.

Hoje mirei, mirei uma luz que se vai aproximando. Estou a caminhar, devagar, mas a caminhar. É um bom princípio reconhecer algum percurso que se vá tomando, ainda que aparentemente pouco. No entanto, muitas vezes é difícil ter essa perspectiva, a doença cega-nos, deixa-nos vulneráveis ao próprio estar e à própria consciência desse mesmo estar. Sei, com alguma claridade (no momento em que escrevo estas linhas), que o percurso é lento por natureza, é cheio de altos e baixos, momentos em que se recupera e outros em que aparentemente tudo volta para trás. Neste instante reconheço esse processo.