Descobri-me enquanto mulher trans e não binária já após os meus 20 anos. Nada que não se tivesse manifestado mais cedo, mas simplesmente não tinha linguagem nem forma de descrever aquilo que sentia, aliás, por outro lado, sentia-me erroneamente com um problema e, um problema grave. Só nos meus 27 anos, depois de um processo intenso de desconstrução de quem eu era e daquilo que desejava para mim decidi que queria mudar o meu nome e género no cartão de cidadão.

Soam os sons dos sinos, a rua, deserta, caminha entre um ponto e outro ponto, a luz reflecte na água das poças que transitam entre as margens da calçada. Mais nada se ouve num raio próximo. Lá longe, imerso na escuridão, pequenos uivos de animais que circulam pelo seu habitat. O silêncio próximo reina.

Olho para o ecrã à minha frente, várias imagens me conduzem a histórias e fins diferentes. Uns melhores, outros piores… outros indiferentes. A música soa como música, os sons da rua soam como sons da rua. A luz, essa, ligeira… soa… ligeira. Estes percursos que me atravessam o corpo a imaginação e a realidade são partes de mim, partes que coabitam no meu ser. Partes da minha existência… partes que quero preservar e permitir sentir, vivenciar.

Os meus dedos tocam o teclado, as minhas unhas pintadas brilham sob a luz que as teclas emitem, a música circula pelos meus ouvidos, a luz essa, apagada. Apenas a luz silenciada do ecrã que se apresenta à minha frente. Lá fora, o ar passa, o vento quase não existe, o calor invade a janela, propaga-se pelo chão e chega-me aos pés. A música continua, os tons fortes, as batidas, os graves, os agudos, ao seu ritmo... os meus dedos escrevem este texto. Como a mente depressa se encontra no Céu, como depressa se encontra no Inferno. Subindo e descendo entre o Paraíso e as Chamas que nos queimam a existência. Os sentimentos ambíguos. A incompatibilidade do sentir.

Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. O tecido é novo e o seu peso é acessível. Facilmente transportável. Facilmente se coloca no bolso e facilmente se esconde na carteira. Também a tela consegue cobrir uma parede por inteiro, ou até mesmo o chão de um armazém. É apenas uma tela insignificante, mas que acompanha-me por onde vou. Porém, esta tela nunca deixou de ser branca. Depois de milhares de milhões de quadros pintados, coloridos, rasgados, esfaqueados, queimados, destroçados... a tela continua a ser branca.