April 26, 2015

No presente, uma das lutas mais importantes que se trava com a própria forma de ser e estar no mundo é a que nos associa de forma alguma à beleza e/ou à estética - seja esta física ou metafísica.

Beleza

É-nos inerente traçar limites entre aquilo que gostamos ou não, entre aquilo em que nos vemos retratados ou não. Mas sem menor importância, é entender como são esses limites traçados e porquê.

De uma forma pessoal como mulher transgénero sinto, para além de todas as assumpções daquilo que é aceitável perante o mundo (por ser belo, estético ou coerente), uma forma permanente de vinculação a uma forma de ser e me apresentar em linha com a ideia de que deverei no futuro ser confundível com qualquer outra mulher, sem expressão e existência próprias.

O estudo sobre a estética e sobre o que nos faz sentir o belo é longo. Está presente em qualquer texto filosófico e está entranhado em qualquer redacção sobre a construção social. Existe quase sempre uma premissa base: a instituição do belo marca-se, principalmente, pelo contexto social e pela vigência da maioria. Este debate é controverso e gostaria mais tarde, num outro artigo, voltar ao assunto, dado que neste não seria esse o objectivo.

Nos últimos meses vi no Huffington Post a notícia do progresso fantástico de Aydian Dowling e sobre a sua possibilidade de ser o primeiro homem trans a aparecer na capa da Men’s Health (link aqui). Vi também algumas notícias sobre a modelo Andreja Pejic (link aqui), a primeira modelo transgénero da Vogue. São duas histórias que valem a pena ler.

Porém, quando leio estas histórias de sucesso (merecido) e, ao mesmo tempo, assisto a uma luta permanente (na qual eu me encaixo) contra o preconceito corporal, contra a ideia de um modelo perfeito, contra a ideia de um mundo uniformizado, a favor de um mundo em que cada forma de ser existe na sua completude e presença, interrogo-me. Pergunto-me se, ao mesmo tempo, em simultâneo com a dificuldade acrescida por um indivíduo transsexual entender a sua realidade (independentemente do critério social), não traz uma dificuldade anexa que passa pela noção de ser confundível.

As formas de descriminação corporal são mais que muitas, por todos os factores, por todas as diferenças. Seja pela cor, forma, traços, olhos, cabelo, entre muitas outras… Somando todos estes pontos, um a um, o que vejo no fim é alguém que não é humano… é uma sobreposição de ideias sem fundamento, vazias de existência… sem individualidade. Não consigo, sequer, visualizar mentalmente um homem ou uma mulher com todos os traços convencionados ideais… simplesmente, não consigo - certamente e à luz de alguém, essa pessoa iria ter algo não ideal… bastaria alguém.

Constantemente a visão de mim enquanto mulher confundível é trazida para cima da mesa, porém… que mulher? Quantas mulheres diferentes existem? Todas. O que é ser confundível? O que é ser uma mulher bela?

No fim e em jeito de conclusão, apenas quero ser eu naquilo que tenho direito, naquilo que menos sofrimento interior me causa. No fim, apenas quero acordar de manhã sentir-me confiante por ser quem sou, independentemente de quem sou e de como sou vista. Apenas, feliz.

Dani

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