Olho para o ecrã à minha frente, várias imagens me conduzem a histórias e fins diferentes. Uns melhores, outros piores… outros indiferentes. A música soa como música, os sons da rua soam como sons da rua. A luz, essa, ligeira… soa… ligeira. Estes percursos que me atravessam o corpo a imaginação e a realidade são partes de mim, partes que coabitam no meu ser. Partes da minha existência… partes que quero preservar e permitir sentir, vivenciar.

Há dias, uma dor lancinante percorreu toda a minha existência, da psicológica, à física. Há dias, eu estava à beira de morrer afogada no meu próprio estar. A luta foi insana, mas descobri que podia fazer diferente. E que fazer diferente era mais seguro do que reproduzir padrões. Estas dores fazem parte da minha existência, não interessa que existam, interessa o que lhes faço. Sei que vou ficar à beira da morte muitas vezes ainda, mas sei que tenho mais ferramentas, também, de sobreviver. E, acima de tudo, viver. Não me contento, de modo algum, com a sobrevivência. Estou neste mundo para viver, quero viver e isso importa-me bastante. Importa-me.

Hoje estou feliz, não uma felicidade eufórica, mas uma felicidade saudável. Uma felicidade calma, tranquila e estável. Também a tristeza me acompanha, mas de outro modo. De um modo em que é reconhecida na sua integridade, na sua validade e na sua forma própria de ser. Sinto-me, também, feliz por me permitir estar triste. Porque a tristeza é, neste momento o menor dos meus sentimentos, mas abraço-a, sentindo-a e deixando-a exprimir-se. A forma como combino o meu pensamento é de outra estabilidade, de uma manutenção de bom trato, do bom cuidado e do bom toque. Não vou contra o que sinto, permito que este exista na sua plenitude.

Sei que a morte me persegue, mas também sei que eu persigo a vida. Exemplo disso: a minha própria existência. Não fujo, enfrento. Estou, presente. Em todos os momentos. É nesse contato que muitas vezes perco a noção de quem sou, de onde venho e para onde vou. É nos momentos em que a morte me toca, nos momentos em que preciso acordar de volta, em que preciso ressuscitar, de me reanimar e bater o coração. Saber que posso fazer diferente a cada vez, fazer saudável a cada etapa.

As histórias que as imagens que me apresentam são várias, desde o terror até à eterna felicidade. Por entre essas imagens há caminhos, roturas, obstáculos, contornos e desvios. É num momento de hiper consciência que me lanço para a frente, corro como ninguém, devolvo-me à realidade, procuro o contacto com o mundo e desvio os obstáculos. É neste momento de hiper consciência que alcanço o meu profundo estar. Nas profundezas da minha personalidade, dos medos que me alcançam, das dúvidas que me soletram, das verdades que se acomodam e das mentiras que me tentam atraiçoar. Quem sou eu? Fecho os olhos neste momento e penso. Deixo-me estar e fico com esse pensamento só para mim. Não tenho de escrever sobre quem sou eu, eu sou.

Estou ridiculamente presente no meu processo. Visivelmente concentrada em entendê-lo. Definindo critérios sobre o que me é saudável, sobre o que me é possível e sobre o que quero conquistar. Porque conquistar não é só ir mais longe, é também agarrar o que está para trás. É também fazer disso uma ferramenta, um modo de vivência, uma realidade pura. Porque de puro apenas pode coexistir com a nossa própria mente. O corpo é poluído, o mundo é poluído.

Por estas travessias emersas em questionamento, passam todas as pessoas com que de alguma forma estabeleço um vínculo. Redefinindo e ressignificando essas próprias relações. Porquê? Porque o abandono não se pode sobrepor à presença, porque a desistência não se pode sobrepor à permanência. Porque a ressignificação de vínculos é um processo constante. É um processo de amadurecimento, é um processo de estabilização, um processo de construção permanente. Estruturalmente, a potencialidade de cada vínculo existe na sua própria manutenção. Na sua própria modelação, na sua própria reestruturação.

E porque sou eu atravessada por relações quando me submeto a processos de hiper consciência? Porque tenho vivências padronizadas. Porque são as relações que espelham muitas informações sobre estes padrões que construí ao longo de longas vivências. São estes padrões que muitas vezes obstruem a minha capacidade de ver para além de, para além do espelho, para além de mim mesma e daquilo que posso ser capaz ou não de realizar. Estes padrões também limitam, em muitas vezes, a minha capacidade de me relacionar e de construir. É nesses momentos que a dor torna-se o elemento fundamental para a minha realização e para a concretização de mudanças paradigmáticas na forma como espelho a minha vivência.

A minha libertação pessoal passarará indiscutivelmente pela libertação do abandono. O abandono de mim mesma para comigo mesma. É neste paradigma que me importa ressignificar o abandono. Que me importa transformá-lo em algo que afecta negativamente a minha vivência, deixando de ser algo que é expectável e normalizado nos meus relacionamentos. Ressignificar para que a procura de responsabilização não seja unicamente um processo da minha resolução pessoal.

Hoje sinto-me feliz, mas sinto uma tristeza subliminar. Está, existe, mas consegui concretizar. Uma tristeza do luto, o luto de quem se vê abandonada pela morte e pela desistência. Hoje sinto-me feliz, porque a morte não foi em vão, a morte reconheceu-me. A morte na existência, mas também na vida e na presença. Hoje sinto que finalmente a tristeza apoderou-se do meu sentimento de perda, que lhe deu significado. Deixei de estar catatônica, parada e sem acção, para respirar ar novo.

Por isso agradeço a ti, a ti por todas as ressignificações que me fizeste ser possível acontecer neste momento. Hoje foi esse dia. E assim me deixo reflectir no meu estar. Obrigada.

Dani

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