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Quando a apatia te rouba o prazer...

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 23 de outubro de 2019 · 3 mins read
Quando a apatia te rouba o prazer...
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São quatro da tarde, o meu corpo continua estendido no sofá… imóvel, sem acção. Olho em meu redor, vejo os livros, a consola de jogos, a televisão, a máquina fotográfica, a mesa de DJing, o papel para escrever e/ou desenhar. Olho com angústia. Olho com o sentimento de que tudo aquilo não me pertence, nunca pertenceu. Nunca fez parte da minha vida. Apenas o sofá, o sofá e o escuro da sala. Só conheço duas coisas, a manta que me cobre no sofá, e os lençóis onde me deito durante a noite. Apenas isso.

Depressão

A casa está desarrumada, a roupa por lavar, a loiça está por todo o lado. Os jornais estão amontoadas ao fundo do sofá… todos por abrir, todos por ler. A mochila do trabalho continua no mesmo sítio desde o dia em que a pousei, sem movimento, inerte. O meu corpo resiste a deslocar-se, resiste a colocar-se na banheira e passar-se por água. A roupa vai ficando, dia após dia, usada… o sofá torna-se a minha vida. O sol queima, o sol é luz que não quero ter, perturba. O sol… no escuro vivo eternamente.

Pensar é cansativo, mexer é cansativo. Nada vale a pena, nada tem valor, tudo perde a essência de existir. Porque vou ler? Porque vou escrever? Porque vou desenhar? Ou jogar, ou tirar fotografias? Para quê? Não tem significado, significado algum. Não percebo porque tenho livros, ou jogos, ou máquina fotográfica… não percebo porque teria de sair do sofá, o sofá.

O que é o prazer? Palavra difícil… Ppppp … rraaa…zzerr. Não ressoa, não sinto, não me toca.
O que é gostar?…
O que é paixão?…

Os meus olhos olham no vazio. É apenas isso e só isso. Não há um mundo de gostares, de prazeres, de paixões… há apenas e só apenas o vazio. O vazio que começa e termina em mim. O vazio que me roubou tudo, tudo o que tinha, tudo o que pensava ter, tudo o que poderia vir a ter. O vazio que me roubou a vida. O vazio que me roubou a existência. Este vazio que aqui existe, que cansa, que me provoca exaustão, que me deixa caída, abandonada ao meu próprio lixo.

Estou tapada, mas o meu corpo está gélido, frio, congelado. Não tremo, não tenho frio, não sinto a temperatura. O meu corpo está simplesmente… está simplesmente apagado, desconectado, existe simplesmente… sem vida. Fecho os olhos e espero o dia acabar. Fecho os olhos e espero não sonhar, fecho os olhos e espero acordar para dormir outra vez. Fecho os olhos e com eles fechados fico.

Mexo um pé. Mexo uma mão, viro-me para o lado da parede. Respiro. Ali fico. Rebolo novamente. Ali fico. Rebolar passou a ser a única acção que me sustem, a única opção de vida. Era tão simples. Rebolar para a esquerda, rebolar para a direita. Ficar. Apenas ficar. Rebolo para a parede, quero evitar olhar para a sala, quero evitar olhar para os livros, quero evitar olhar para a máquina fotográfica, os papéis, ou os jornais. Quero evitar, quero que deixem de me causar este sentimento de incapacidade, inutilidade, de mero esquecimento. Quero evitar.

Sinto-me. Sinto-me incapaz, sinto-me sem movimento ou vontade. Sinto frustração, a tristeza começa a inundar o meu pensamento. Sinto que nunca vou sair daqui, deste buraco vazio e sem vida. Sinto que será sempre assim, momento após momento. Sinto que quero, apenas quero… desistir. Agarro-me, tento-me agarrar, mas pergunto-me se não é mais fácil escorregar e deixar-me ir. A tristeza está-se a apoderar de mim. Incapaz de avançar, incapaz de lutar, incapaz de fazer, incapaz de sentir. A tristeza está-se a apoderar de mim. Incapaz até de chorar.

Peco por existir, peco por estar, peco por nada sentir, peco… peco, peco, peco. Apenas e só.

Dani

Imagem: day 167_fighting it - Ana C.

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira de software e astrofísica e astronoma