February 16, 2017

Olho a folha de papel, penso nas linhas que me comprometo a escrever, mas ainda não sei o que caminho que vão tomar e, muito menos, o seu final. Olho a folha de papel e apenas penso nas linhas que me acredito querer escrever. Relembro a minha cadeira e a minha secretária, a minha caneta e o meu bloco, o teclado e o monitor, apenas. As linhas escrevem-se direitas, mas eu pretendo escrevê-las no espaço e tempo para o qual existem. As linhas escrevem-se em sequência, mas eu pretendo escrevê-las de acordo com a história que relatam.

Manuscrito

A folha de papel está amarelada, parece suja, mas é apenas a luz que raia do nascer do sol. A folha de papel está vazia, pronta para contar uma história. A história de quem a ler, a história de quem a pretender, apenas uma história para ficar ou esquecer. É manhã, sentada na cadeira, solto um suspiro, não sei por onde vou começar. Mas vou. É o meu próprio desafio. É a minha meta, a minha conquista, o meu objectivo, a minha luta. Luta, porque de luta sou constituída, sempre fui e serei, sou. Uma luta que se expressa nas palavras, no sentir e na paixão, uma luta que se expressa na mão, no esforço e no tacto. Uma luta.

Olho a folha de papel, finalmente entra em contacto com a caneta, coragem ela grita, a caneta. A caneta que tem uma história, única, gasta e velha. A caneta que tem uma história, singular, penosa e destrutiva. A caneta. Sai a primeira palavra, o meu pulso treme, treme de temor, de arrependimento, sujei a folha… era limpa, vazia, sem sofrimento ou ternura… era uma folha. Olho a folha de papel que deixou de ser, olho a vida que passou a existir. Procuro entre as linhas o momento, procuro entre as linhas a forma e o modelo, procuro entre as linhas o futuro de um passado que é relatado. É, nestas letras, nesta tinta, nesta força, nesta mente, neste lugar, neste espaço, neste tempo, nesta existência que permaneço, mas que me deixo levar. É pelo conjunto do vazio da folha de papel que conquistou a vida que lhe é presenteada. É pela vida que vivo que decido abraçar o papel com a caneta. Juntos, para sempre, até sempre, agora. Juntos, a comunhão de ser interior com o exterior, apenas e sempre, ser e existir. Juntos. Permanentemente juntos. Papel que não se vai esgotar, caneta que não vai ficar sem tinta, braço que não se vai cansar, mente que não vai parar, lugar que permanecerá, espaço que conquistarei, tempo que é apenas meu.

A folha de papel está amarelada, mas não apenas, está rica. Rica em traços que proclamam vivências e estados, permanências e quebras. Rica em traços que anunciam o finito do infinito. A história. Aquela história. Esta história. A história que queremos ler, que queremos declarar, que queremos vingar, que queremos manifestar. Manifesto. Suspiro novamente, o papel não acaba nunca. A minha mente acelera a cada toque, palavras que seguem a conduta e caem diretamente na folha, palavras que jorram sem limites, sem questão ou pudor, palavras. Palavras.

Porque eu quero, porque sempre quis, porque sempre vou querer. Rasgo a folha, apago os traços, esqueço a vida e limpo as memórias. As linhas deixaram de existir, a tinta desapareceu, a mão enfraqueceu, a mente enlouqueceu, o espaço encolheu e o tempo… o tempo esqueceu.

Porque eu quero, porque sempre quis, porque sempre vou querer olhar a folha de papel amarelada da luz que raia do nascer do sol.

Dani

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Sou ***anarquista relacional*** e, mais do que para as outras pessoas e para a sociedade no geral, *devo reconhecê-lo para a minha própri...… Continue reading

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