Existem muitos momentos que não podemos controlar, existem muitos momentos que não podemos decidir. Existem, também, momentos em que apenas podemos gerir os danos que nos são causados directa ou indirectamente, conscientes ou inconscientes. Momentos em que precisamos de reforçar as nossas energias, o nosso bem estar e reencontrar-nos novamente num mundo que está sem luz e calor. Nesses tempos existe a noção que queremos desistir, que necessitamos parar a realidade e parar tudo o que nos rodeia. São momentos - passados - num mundo frio e escuro.

Hoje não foi um dia positivo. Foi um daqueles dias que somam todos os dias que passaram, todos os acontecimentos diários, as trocas, as experiências, as conquistas, as derrotas, o certo e o errado. São aqueles dias em que a vitória parece derrota, o bem parece mal, a proximidade parece distância. São aqueles dias em que nós nos extenuamos de nós próprios enquanto pessoas, nos esgotamos na nossa própria vida.

Os últimos dois meses têm sido emocionalmente complexos para mim. Após meses de luta permanente, a ansiedade tornou-se corrosiva e levou-me a cair num novo ciclo misto (relacionado com o meu problema de saúde) que, por sua vez me retira a capacidade de ter sonos descansados e consequentemente arrastei o meu estado de saúde e a minha sanidade mental durante algumas semanas.

A experiência de viver em plenitude com a minha identidade é uma procura permanente de estar, de poder e conseguir. A minha leitura pessoal enquanto rapariga trans foi-se complementando com a minha própria definição de que não passa de um ponto para o outro, mas passa por uma linha constituída por muitos pontos. Num registo que ao mundo parece ambíguo, num registo que a mim me parece o mais correcto. Procurar não ser um resumo de mim é um problema complexo, mas também interessante de manipular.

No dia 30 de Março comemorou-se o Dia Mundial da Doença Bipolar (no dia de nascimento de Vicent Van Gogh). Um dia importante para o combate ao estigma de um problema real que, infelizmente, afecta muitas vidas. Um problema que passa invisível, que passa incompreendido por grande maioria das pessoas. Não queria deixar o meu percurso de fora, num momento em que cruzo dois caminhos diferentes, mas que acabam por ter repercussões claras no meu dia a dia. Lidar com um problema de doença mental e com um problema sistémico da sociedade por ser uma pessoa Trans.