Os meus dedos tocam o teclado, as minhas unhas pintadas brilham sob a luz que as teclas emitem, a música circula pelos meus ouvidos, a luz essa, apagada. Apenas a luz silenciada do ecrã que se apresenta à minha frente. Lá fora, o ar passa, o vento quase não existe, o calor invade a janela, propaga-se pelo chão e chega-me aos pés. A música continua, os tons fortes, as batidas, os graves, os agudos, ao seu ritmo… os meus dedos escrevem este texto. Como a mente depressa se encontra no Céu, como depressa se encontra no Inferno. Subindo e descendo entre o Paraíso e as Chamas que nos queimam a existência. Os sentimentos ambíguos. A incompatibilidade do sentir.

Oscilar entre o desejo e a morte é a minha permanência de existir. A conexão perfeita entre o sentir-se nua e o sentir-se invisível para o mundo. A melancolia pesa-me, o humor trespassa a necessidade de existir a acaba na virtude do silêncio. A inconsistência do próprio sentir é mantida pela dor incompreendida de estar no mundo. Um mundo que nos apraz o desejo de viver, mas também o desejo de morrer. A incoerência perfeita entre o estar e o deixar de estar, o vivenciar e o culminar da sobrevivência. O estado de alma a que me sujeito começa onde termina, passando por tudo o resto. Não é circular, é adimensional, transporta-me para outro estado, para outro olhar sobre uma luz que neste território não existe. Um território de melancolia assistida, assistida pela dor intensa que me percorre cada músculo do meu corpo. Uma dor lancinante que me atravessa e dilacera por completo… faz-me implodir na minha própria incerteza de existir.

Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de trespassar a realidade… com vontade de congelar a felicidade e vivenciar a derrota do que é permanecer. Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de me transformar no silêncio da luz que me acompanha. A vontade real, imaginária e potente de me invisibilizar. A vontade real, imaginária e potente de me derreter em pedaços de vento que apenas sopram o calor que me chega à janela… apenas rajadas de que nada se sente, de que tudo se precisa. A vontade real de no mundo eu me ausentar, de no mundo eu apenas bater ao som do passo da areia que desliza em oceanos abandonados. As minhas pernas mexem, o meu corpo dita a ordem do que penso. O meu pescoço alerta para o sufoco. Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de trespassar a realidade.

Voltando do Céu e caminhando para o Inferno, o meu estado de alma divide-se entre o Paraíso e as Chamas, o meu estado de alma divide-se entre a vida e a morte de quem já viveu e já morreu centenas de vezes. Uma vida e uma morte continuamente repetida, entre o sucesso viver e o desprezo de morrer. Ou também… o desprezo pela vida e felicidade pela morte. Ambas as verdades, ambas as realidades, ambas os imaginários, ambas concretizáveis no espaço tempo que me antecede e que precede, não menos no presente… um presente estampado em dor, que não me deixa nem viver nem morrer. Um presente estampado de insuficiência que não me deixa estar e não estar. Um limbo de realidade, um limbo entre o oceano e a praia, talvez no redemoinho das ondas que chegam. Um limbo entre a árvore e a raíz, talvez na terra que a percorre. Um limbo entre voar e cair, talvez no ar que me escoa na respiração.

Olho lá para fora, não está totalmente escuro, o brilho da luz de outras casas aparece lá longe. O meu corpo estica-se entre o teclado e a rua, procura o sustento na pequena aragem que agora passa. Procura sustento nas próprias palavras que não planeja escrever, nas palavras que caminham de improviso, sem metas, sem constrangimentos, sem regras e sem estilo. O texto sai-me corrente, sai-me sem pensar, apenas o sentir permite-me fluir… a flutuação que aos poucos me provoca pânico, que me cala, que me surda, que me cega, que me bloqueia… o pânico surge através deste texto, o pânico construiu-se na escrita, o pânico agora é real… continuo, porque quero continuar, sem qualquer sentido que sustente as palavras que da minha mão saem…. quero continuar sem qualquer controlo, sem qualquer pavor de escrever certo ou errado, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever… dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor.

Viver no limbo da felicidade e da melancolia, viver no limbo de quem sente euforicamente ambos os estados. Como que euforicamente existisse, como que euforicamente já estivesse morta. Como que se procuro estar, também procuro não estar.

Apenas… porque sinto. Apenas porque sinto-me ser apoderada do contraditório….

Dani

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