September 09, 2014

Leitura - A Metamorfose

“Na verdade nunca tinha imaginado o pai como agora o via; nos últimos tempos, de resto, o novo hábito de rastejar por todo o quarto levara-o a descurar a atenção aos acontecimentos no resto do apartamento e já deveria estar preparado para encontrar algumas mudanças. E porém, e porém, aquele homem seria ainda o pai? O mesmo homem que ficava na cama cansado como morto quando Gregor partia (…)” - A Metamorfose, Franz Kafka.

A Metamorfose de Franz Kafka (1883-1924) recebe claramente um lugar especial no seu modo sombrio, simples e eficaz de retratar a vida familiar, o nicho humano e do sentimento. Na edição que possuo, o prefácio de Vladimir Nabokov dá uma excelente explicação do mundo kafkiano presente em A Metamorfose. Porém, mais do que isso, a proeza de transmitir esta mensagem vai muito para além da época em que foi escrito.

A resposta clara à falta de sentimentos e o excesso de desprezo, à troca da posição pessoa capaz e o animal incapaz… o humano e o bicho. O sentimento é transformado num obstáculo na pura simplicidade cega do Homem, enquanto ser pensante. Kafka presenteia-nos com Gregor, um jovem trabalhador que se vê transformado num insecto - a representação da transformação, o Homem que deixa de ser Homem, mas continua humano. Kafka traz-nos uma família que muda literalmente a sua postura, mostrando sem qualquer problema vazio emocional - a ideia da transformação sentimental, o Homem que continua Homem mas continua um bicho. Desta forma, Gregor é o insecto, indefeso, mas capaz de sentir a indiferença dos pais e da irmã, por outro lado, os pais, deixam de reconhecer o filho, querendo mesmo fazê-lo desaparecer.

Triste, este livro revela-nos de uma forma crua, a frieza humana. Ainda que seja um livro do princípio do século XX, transmite algo muito actual, bastante presente no dia a dia.

Existe uma versão curta adaptada à televisão, também chamada de “A Metamorfose”.

Boas leituras,

Daniel Bento

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