November 27, 2014

Quase três semanas após um passo importante, o retorno interior conseguido tem sido, sem qualquer sombra de dúvida, bastante positivo. Porém, mais do que ser positivo ou bom, é preciso não perder o trajecto e entender que o caminho é longo e é necessário manter-me alinhada com o mundo, é necessário manter-me consciente de que os dias continuam e, consequentemente, o mundo que nos rodeia não para.

Quando pensei nas palavras que iria usar para o título deste testemunho, surgiu-me algumas dúvidas. Naturalmente, estas palavras são suficientemente genéricas para albergar uma série de ideias e pensamentos que construo ao longo dos dias. No entanto, queria focar-me num ponto importante. A minha construção, tanto anterior, como presente e futura.

Existe, dentro do rigor que a palavra permite, a realização do meu carácter público enquanto mulher é a materialização de um sentir e, sem retirar o devido sentido da expressão, não é uma mudança. A palavra transgénero esta associada a uma transição e não a uma troca. Porém, é aceitável a compreensão que se tem, efectivamente existe uma mudança, mas que é de carácter fundamentalmente físico e não psicológico. Uma das grandes exigências vinculadas a este estado é a capacidade de conseguir enquadrar um estado interior com uma realidade que é apenas tangível por mim mesma. Existem várias consequências práticas disto. A medida com que se diz “eu sinto”, é a mesma medida usada para construir uma potêncial dúvida sobre a nossa integração.

Pessoalmente, o meu “sentir” torna-se mais fundamental, mais essencial na medida em que permito-me sem usufruir. Por exemplo, o meu corpo é limitado, neste momento é a minha limitação. É limitado para a minha visão de eu mesma e, é limitado para a visão que me permito ter para o outro. Era de prever que, naquilo que é básico, naquilo que é humano e animal me pudesse sentir limitada. Era de prever que encontrasse aqui um obstáculo. Porém, não, não me acontece. Existe em mim (não sei como será com mais alguém), algo interior, algo intrinseco. É a minha existência que me permite puramente sentir sem obstáculos. Naquilo que é fundamental e essencial eu sinto. Naquilo que me forma e me constrói eu sinto. A consequência material é diferente, mas o meu eu permite-me. Como resultado, não se compara, mas equivale. É, para mim, prova para mim mesma que a ideia de ser plenamente verdadeira não está limitada no essencial, mas apenas no contexto. Este, depende da minha visão do mundo, da realidade, da sociedade e do outro.

Ao mesmo tempo, isto faz-me pensar em mais algumas questões. Apesar do quadro biológico não surgir a meu favor, está o meu crescimento, a minha formação e estará o meu futuro completamente dependentes desta questão? Colocando de uma forma simples, serei menos mulher por percorrer um caminho diferente? Porém, foi-me permitida outra experiência, masculina, serei eu menos homem por tal? Esta incongruência faz-me apenas pensar numa resposta. Não. Sou tudo o que me define, pela experiência e pela existência. Sou completa. Por quanto, mesmo o mundo estando de pernas para o ar e, aos trambulhões, sei que a minha construção é de dentro para fora. É de quem eu sou, para quem eu sou.

Certamente, um pensamento inacabado…

Dani Bento

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