No fim de semana de 10 de Março fui ao Porto com o objectivo primário de visitar, pela segunda vez, a feira erótica ErosPorto - já lá tinha estado em 2017. A expectativa não era muito alta depois do que assisti o ano passado, mas dado que havia uma probabilidade do tema da feira abordar questões trans, decidi ir este ano. No entanto havia o receio da representação trans da feira fosse apenas um fetish e não mais do que isso. É sempre um desafio entender de que modo este espaço tenta ser inclusivo, ou não, e de que modo poderá ser proporcionada uma boa ou má experiência. Porém, dá-me a entender que a mecânica da feira não muda praticamente nada de ano para ano.

ErosPorto 2018

O ano passado serviu-me de comparação a feira erótica de Lisboa que tinha havido anteriormente e tive logo algumas observações a apontar como, por exemplo, a falta de um palco principal que não fosse de editora nenhuma em particular, mas onde havia espectáculos vários a noite inteira. Este ano, o ErosPorto continuou a pecar pela mesma falta. Este ano decidi ver shows diferentes do ano passado - acabei a ver um show hétero e um show swing. Ambos deixaram bastante a desejar e o telemóvel foi a minha escapatória para me entreter a passar o tempo enquanto o espectáculo durava. Erotismo não existia e a representação (sim, nós sabemos que é tudo representação) deixava imenso a desejar. No fim foi sentir o mesmo que senti o ano passado: a feira não tem um valor educativo que poderia ter nem, certamente, um valor identitário que poderia demonstrar. Uma feira erótica poderia ter todo um potencial se não fosse feita nestes moldes altamente capitalizados e comerciais.

Não querendo discutir visões políticas na existência de um feira deste género, quero, no entanto, dizer que a experiência adquirida não foi apenas negativa, mesmo não tendo vontade de voltar a frequentar esta feira - a menos que mude radicalmente a sua forma de funcionar. Tirei algumas conclusões importantes sobre a minha própria dinâmica pessoal e sobre o meu caminho neste campo. Conclusões essas que não nascem de a ter frequentado, mas a mesma apresentou-me um contraste suficiente para entender as minhas dúvidas e dificuldades.

Há muitos anos que me afirmo enquanto pessoa não normativa, em várias componentes da minha vida, o que me leva a questionar permanentemente espaços que são por si só feitos e concebidos para uma normatividade, para um público que é maioritário e homogéneo. É neste contraste que também percebo a minha posição no mundo e, neste caso em particular, a minha posição no espaço das relações e da intimidade - ou, também dizendo, dos desejos. Durante alguns anos tentei performar uma vida mais normativa e isso implicava mimetizar comportamentos que não eram naturalmente meus e práticas que não eram, também elas, naturalmente minhas - não estando isto relacionado com uma questão binária de género (ser homem ou ser mulher), mas pela forma que eu sentia que me deveria exprimir para me sentir incluída e parte do grupo de pares. Assistir a vários palcos em que a experiência física é sabotada pela ideia do que é normal, comercializado e capitalizado faz-me pensar na minha divergência, no quanto saí fora deste roteiro, deste percurso.

Esta experiência deixou de ser um estímulo positivo, mas um estimulo que me reconhece na repulsa. Uma das minhas dificuldades era não me reconhecer nestes modelos altamente white-abled-hetero-cis-mono-normativos e batalhar nos meus dias e nas minhas relações para eliminar estes resíduos tóxicos, no entanto, a falta de auto-estima por vezes faz-me voltar a procurar um modelo mais socialmente reconhecido (normativo) para que consiga sobreviver a esta violência. A minha mimetização é então uma forma de sobrevivência e não uma forma natural de existir. O meu corpo deve seguir o seu próprio caminho, o seu ritmo e a sua própria forma de existir. A cópia, ainda que inconsciente, não me leva a um caminho de realização, pelo contrário, leva-me a à frustração, a um apagamento do meu próprio eu, da minha identidade.

Se me perguntam o que é então uma relação não normativa, só posso dizer que também é uma relação onde eu me posso deixar existir em pleno, em toda a minha figura, forma e sentir. Se me pergunta o que é então violento numa relação normativa: a sua forma inconscientemente e consciente de ser hegemónica, desconsiderando todas as outras formas de sentir.

Porque no fim, o sexo também ele pode ser político. O acesso ao corpo, à sua autonomia, ao seu direito no espaço privado e público. Porque também o sexo pode ser identitário nas suas formas de existir. Porque o prazer pode ser complexo, mas não tem de ser complicado. O prazer é também ele um direito.

Dani

Imagem: ErosPorto

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