São seis e meia da manhã, o despertador toca… já há meia hora que esperava que tocasse. Saborear os lençóis e o descanso até decidir que era hora de levantar. São sete da manhã, o despertador toca… continuo deitada, sinto-me embalada a pensar em como será o novo dia. São sete e meia da manhã, o despertador toca… é hora de saltar fora dos lençóis, o novo dia está aí… perto, muito perto, à distância de um salto, à distância de um piscar de olhos. São oito menos vinte, estou completamente desperta. Quando digo completamente é com a energia de quem está em plena maratona… fazendo um sprint deixando tudo para trás. Deixando as árvores, as estradas, as rochas, os penhascos, a praia e o mar… tudo fica longe rapidamente.

Ansiedade

Passa pouco da meia noite, já de medicação tomada há pouco mais de uma hora. A energia vai-se dissipando. Fecho os olhos. Passam uma hora e meia, acordo. Mais meia hora acordada. Passa mais uma hora e meia, acordo. Mais meia hora acordada. Passa mais uma hora e meia… o sono não é permanente, é instável, fugido… o sono é consequência, mas o sono também é causa. A energia transforma-se e retransforma-se. A energia permite-me viver, mas a energia também me mata… a energia permite-me aceder ao estímulo, mas a energia também me esgota. A energia é, puramente é.

A ansiedade corrompe-me o estável, a ansiedade de voltar a estar no mundo, de voltar a pertencer e a participar. A ansiedade é também motor, é engrenagem. A ansiedade é também possibilitadora. Na outra mão do mesmo corpo, a ansiedade é promotora do desgaste, da insegurança, do mau estar. A ansiedade é vida e morte ao mesmo tempo. A ansiedade é sobrevivência, a ansiedade é desgraça. A ansiedade é energia pulsante.

É dia de retornar, mas também é dia de recomeçar. Novas propostas, novos fazeres, novos objectivos. É dia de retomar, mas também é dia de restaurar. Controlo, estabilidade, aprendizagem. É dia de me encontrar e de me reencontrar. É dia. É dia. É dia de viver de novo.

Hoje durmo. Hoje mantenho a calma. Hoje estou tranquila. Hoje fecho os olhos e não sou perturbada por mil e uma realidades. Hoje fecho os olhos e vivo no presente. Hoje estou capaz. Hoje concentro-me, hoje rio, hoje sorrio, hoje amo. Amanhã também me vou concentrar, rir, sorrir e amar. E depois de amanhã, mais ainda. E depois de amanhã estou viva. Recuperada de estar morta, recuperada de não existir, recuperada de colapsar. Recuperada de me ódiar.

Hoje não me odeio, hoje perdoei-me, hoje permiti-me, hoje senti que estou. Hoje realizei que sou mais que o passado, mas também sou mais que o futuro e certamente, mais do que o presente. Tudo hoje, tudo hoje e amanhã e depois. Tudo hoje, ontem e antes. Porque não sou apenas eu, sou transversalidade nos sentires. Sou meta, mas também sou partida. Sou vitória, mas também sou derrota. Sou segurança, mas também sou insegurança. Sou.

A música corre-me pelos ouvidos, as mãos estão certeiras, o pensamento alinhado. Um pensamento que não é inóspito, não é perdido… por outro lado, é rico, estável e limpo. Livre o medo de existir, livre o medo de não me corresponder, livre o medo de me auto-sabotar. Livro o medo que corre por cada nota de cada música. Livre o medo para quem nos ama e para quem amamos. Livre o medo de estar e, também, não estar.

Não estou sozinha. Não acredito que esteja sozinha. Não acredito no mal que imaginei onde o mundo se quer movimentar contra mim. Não acredito no bem que imaginei quando tudo era perfeito. Não acredito simplesmente. Tudo são as nossas projecções, tudo são as projecções da outra pessoa em relação a nós..

Quero acreditar que a minha vida não foi vazia, insignificante ou problemática. Quero acreditar que estamos no caminho certo. Quero acreditar que sim.

Porque todos os dias é preciso continuar a lutar
porque todos os dias queremos ser nós
porque todos os dias eu quero ser eu

Dani

Imagem: Major Types of Anxiety Disorders - Maheen Fatima

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