Hoje não foi um dia positivo. Foi um daqueles dias que somam todos os dias que passaram, todos os acontecimentos diários, as trocas, as experiências, as conquistas, as derrotas, o certo e o errado. São aqueles dias em que a vitória parece derrota, o bem parece mal, a proximidade parece distância. São aqueles dias em que nós nos extenuamos de nós próprios enquanto pessoas, nos esgotamos na nossa própria vida.

Tempestade

Partilhei um pequeno episódio no Facebook, um entre muitos que me acontecem, deixo aqui uma transcrição do que escrevi:

No outro dia esperava numa pastelaria, daquelas que nós vamos para comer bolinhos bons. Esperava. Dois indivíduos discutem entre si quem era eu, um insiste “É um gajo, não vez que é um gajo”… ouve-se, eu oiço. Eu respondo “Se queres saber se sou um gajo podes dizer, se me queres respeitar, ao menos sê discreto nos comentários.” Digo isto, em bom som para que se oiça… ele silencia-se… e acrescento “E já agora, eu sou uma rapariga”.

Olho-me no meu reflexo, imagens diárias como esta vão passando, vão sendo assimiladas, vão fazendo parte de quem sou. Luto diariamente por me validar, por me sentir valida. Num mundo binário é-me mais simples me explicar enquanto rapariga, mas não me valida, não me identifica. O espelho reflecte-me todos estes momentos de questão e de dor. Todos os momentos em que aquilo que o meu corpo representa na sociedade não é o que eu sinto.

Quero sentir, quero que me permitam sentir. Não quero ser o objecto, quero ser a pessoa.

Este episódio que partilhei não foi a causa do meu mau estar, mas apenas um contexto para as minhas palavras. Os meus dias são ricos nestes episódios, nestas danças de verdadeira bailarina com indivíduos que lido todos os dias e em diversos espaços. O que me fez sentir em baixo foi a minha consciência da minha situação diária e da experiência enquanto pessoa socialmente não conforme.

Quando me dizem “É um gajo, não vez que é um gajo” o meu problema imediato não é aquela pessoa em particular. Facto, eu não devo este tipo de explicações a ninguém, porém o meu problema é o reflexo daquelas palavras, no que significam socialmente, no peso que têm nos meus dias e, principalmente, reflectem a minha consciência sobre uma luta interna que tenho, sobre a minha validação pessoal de mim para mim enquanto pessoa não binária. Por exemplo, o próprio acto de responder “eu sou uma rapariga” já é por si uma forma de me tentar encaixar num sistema e segue a consciência pessoal que até na linguagem tenho dificuldade em me referir a mim. Torna-se insuficiente. Torna-se cíclico, um problema de reconhecimento em cadeia que começa pela mensagem visual imediata, até à forma como transcrevo essa realidade em palavras. A complexidade da minha resposta iria, naquela situação, gerar ainda mais confusão… foi-me mais simples esta aproximação. No entanto e novamente, leva a questionar-me a mim.

No fim, muitas destas situações apenas me relembram constantemente a luta identitária que faço em plena acção da minha vida, em pleno direito de viver, em plena firmeza em existir. Todas estas situações promovem um ciclo complexo de memórias que se interligam por muitos factores.

Um dia mau entre muitos outros melhores, mas um dia que nos permite fazer uma pausa, chorar pela nossa dificuldade, merecer o cansaço, merecer dizer que hoje não consigo, merecer dizer que amanhã possivelmente será melhor, merecer dizer que eu mereço. Um dia menos bom, entre outros que são piores, mas um dia que me permite olhar e dizer que sou mais do que uma sobrevivente, sou uma vivente, que me permite olhar e dizer que sou mais do que uma lágrima, mas um sorriso rasgado, que me permite olhar e dizer que sou mais do que um pedaço, mas sou inteira.

Dani

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