No dia 30 de Março comemorou-se o Dia Mundial da Doença Bipolar (no dia de nascimento de Vicent Van Gogh). Um dia importante para o combate ao estigma de um problema real que, infelizmente, afecta muitas vidas. Um problema que passa invisível, que passa incompreendido por grande maioria das pessoas. Não queria deixar o meu percurso de fora, num momento em que cruzo dois caminhos diferentes, mas que acabam por ter repercussões claras no meu dia a dia. Lidar com um problema de doença mental e com um problema sistémico da sociedade por ser uma pessoa Trans.

A Noite Estrelada - Vicent Van Gogh

Vingo-me pelo caminho que percorro dia após dia. Poderia escrever sobre muitas coisas que me seguem pela mente em todos estes momentos, bastantes mesmo. Simultaneamente, também me coloco na posição de reflectir sobre esse percurso. Há uns anos, mais de 10, fiquei bastante doente. Afunilei numa profunda depressão, num poço sem fim. Durante todo este tempo, e até hoje, mantenho o meu acompanhamento clínico e terapêutico. É-me de uma tremenda importância que o continue a fazer. Hoje em dia junto resíduos desse estado com um processo longo e moroso que é este da minha identidade de género. Poderia colocar tudo numa caixinha e sentir que estes 10 anos foram reflexos e preparação do que passo hoje. Mas não, não são - ou pelo menos na sua integra.

A minha depressão vem de longe, de um estado mais longínquo e mais intrínseco à minha própria natureza e vivência. O meu estado depressivo é remoto. E este não foi uma descoberta, foi uma consequência. Recebi um diagnóstico de doença bipolar aos 19 anos - depois de dois internamentos com um diagnóstico errado. Este diagnóstico com o valor (relativo e subjectivo) que tem, permitiu-me conhecer as minhas dificuldades e trabalhar numa solução que me permitisse ter uma vida razoavelmente estável. Neste momento junto essas a outras. Não posso descurar estes estados, dado que eles existem e continuo a gerir a sua presença na minha vida permanentemente. Quando trato de questões Trans, envolvo-me também nas questões do problema da saúde mental. Pessoalmente, é uma luta determinada. “Estar dentro daquela caixa a que se dá o nome de Trans” não é uma doença, porém, infelizmente, na nossa realidade Portuguesa ainda é. E com esse estigma de doença mental (que se trata como disforia de género), vivo o estigma da doença que realmente me afecta e que também preciso de suportar. Honestamente, é esta última que me preocupa mais, pois é com esta que sofro maior impacto no meu dia a dia. São situações que se cruzam, como é óbvio, pelo ciclo de dificuldades que é criado. Porque a primeira questão, faz-me sofrer por determinação social, mas que tem impacto da minha capacidade de gerir a segunda questão enquanto problemática interior.

No entanto, a leitura que é feita da doença mental (nomeadamente nas depressões e, neste caso, da doença bipolar) é muito diferente de qualquer outra doença (não mental). Nunca se conseguirá solucionar com razoabilidade os problemas associados enquanto não for considerada seriamente uma doença e não um capricho pessoal. O sofrimento associado a todo este espectro de problemas é sempre menosprezado e bastante diminuído. É comum associar as dificuldades do foro psiquiátrico, psicológico à personalidade do indivíduo, à sua incapacidade de lidar com o mundo ou, como quem, diz “a sua fraqueza e falta de maturidade”. Porém, muitas vezes é o oposto. São problemas que passam na escuridão do mundo, debaixo do tapete. Pessoas que sofrem constantemente, mas por medo de falarem das suas dificuldades vão deixando a sua doença tomar conta de si, forçando os seus dias, forçando a sua mente a conseguir viver dia a após dias… piorando no vazio. A solidão vai aumentando dada a incompreensão que se vai sentindo permanentemente.

Existem algumas soluções, não posso dizer cura, não tenho essa experiência. Mas podemos numa estabilidade que nos permite viver uma vida razoavelmente calma, ainda que seja necessário manter muitos cuidados. No meu caso, o meu acompanhamento clínico (com um bom médico) e terapêutico foi e continua a ser essencial. Em Portugal não existem muitos apoios no SNS para tornar esta realidade possível, mas durante alguns anos contei com a ADEB (em Lisboa), que me permitiu dar um salto na minha recuperação.

Hoje luto por uma causa diferente, à partida. No entanto, continuo a lutar por esta porque também é minha, também é de muitos que não o podem dizer por diversas questões.

Boas leituras,

Dani

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