November 13, 2016

O meu percurso continua, árduo e ainda confuso. Uns dias estou melhor, sinto-me alegre, pronta para a acção e para o movimento, tenho outros… outros em que não me apetece levantar da cama. Outros em que me apetece isolar do mundo e esquecer que estou por cá. Outros que fico. Esta é uma fase complicada, estou a ser dominada pelos momentos depressivos. Pelos momentos de tristeza crónica. Procuro em cada coisa o melhor que consigo, procuro felicidade em bocadinhos para que me sinta melhor ou, pelo menos, um pouco melhor. Este percurso é necessário para recuperar, é preciso ir tentando aos poucos, saber como agir, como actuar.

Fatshaming

Porém, engordei 8 kg em pouco mais de duas semanas. Este foi o resultado de ter de mudar a minha medicação permanente e com isso iniciar um novo ciclo de recuperação. Estou a recuperar, aos poucos, mas ter ganho peso tão rápido fez-me diferença. Fez-me diferença porque o mesmo tipo de tratamento já me levou a valores muito mais altos, fez-me diferença porque vivemos numa cultura de fatshaming e isto foi-me difícil de gerir durante alguns anos já passados e agora volto, inevitavelmente ao mesmo registo.

Recupero de um problema que me aniquila a auto-estima como uma foice corta feno, e permanentemente lembram-me de um efeito colateral de uma medicação que preciso tomar (o contínuo “estás mais gorda”). Não quero escolher entre estar bem ou ganhar peso de forma descontrolada, porém não quero entrar numa outra luta pelo qual já sofri, da qual consegui sair. Apesar de sempre defender positivismo corporal, há dias em que sou vencida pelo exterior e o meu mau estar consome-me, a minha auto-estima dá de si… No entanto, não é só a questão do aumento de peso em si que me afecta, mas sim o facto de que este crescimento corporal aviva, em mim, uma imagem de um corpo que biologicamente é masculino, o qual eu não me identifico. Mais do que me sentir mal por ter ganho peso, a forma lembra-me a minha condição enquanto macho biológico, lembra-me a minha condição que penosamente estou a tentar melhorar.

Estas últimas linhas caiem em muitos estereótipos e valores contra os quais eu luto, mas… combater estes valores não significa que por vezes não sinta a dificuldade que me provocam. É permanente, é uma luta permanente e a fragilidade por vezes demonstra-se da forma mais simples, mais rudimentar, no comentário banal. O próprio preconceito interior, contra o qual tento lutar constantemente. Pelo menos, ter consciência disso, ajuda-me a dar passos, ajuda-me a pensar numa solução melhor para vencer cada dia, cada momento e encher-me de pequenas vitórias.

Pelo menos sei que isto tudo me dará mais força, bastante mais força para as dificuldades que vou encontrando. São dificuldades necessárias (ainda que de uma forma geral, injusta) para conseguir lutar, para compreender o mundo e procurar uma sociedade melhor.

Dani

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