Sou anarquista relacional e, mais do que para as outras pessoas e para a sociedade no geral, devo reconhecê-lo para a minha própria pessoa. Sou, desde há alguns anos, assumidamente uma pessoa poliamorosa mas em si (tal como, há mais alguns anos, o conceito de monogamia), esta visão criou-me alguns constrangimentos na forma como lia os meus sentimentos. Não por ser incompatível comigo, mas devido à minha própria leitura do mundo e das relações que tinha e tenho, sejam elas em que dimensão e de que dimensão.

Anarquia Relacional

Lembro-me, há alguns anos, quando comecei a questionar modelos de exclusividade: simplesmente o meu modo natural de funcionar não era assim. Com isso, e com a pouca informação que tinha, tentei performar. Tal como o fiz com a minha identidade a nível do género, também o fiz a nível sexual e relacional. Os meus sentimentos não eram menos verdadeiros ou válidos, mas interiormente mais difíceis de gerir. Associado a um problema de foro emocional, a luta era permanente. Por isso, fazer coming out sucessivos foi a minha botija de escape emocional, livrando-me a cada momento de correntes que me iam prendendo o ser, a existência, a personalidade e o sentir. Foi um trabalho árduo e longo e perguntei-me muitas vezes se fazia sentido estar a navegar contra a corrente a tantos níveis diferentes. A resposta é simples: sim. É uma batalha que me trouxe enormes vitórias pessoais e, principalmente, poder sentir e viver em plenitude.

O conceito de amor, para mim, sempre foi simples. Nunca senti que devesse ter um protocolo, uma forma, uma definição. O conceito de amor encerra nele próprio todo o conteúdo e o sentir. Na sua mais livre vontade de estar, existir e partilhar. O amor actua em infinitas dimensões e com infinitas dimensões. Não há o amor errado, como não há o amor certo. Não há o amor mais ou o amor menos. Existem, sim, pessoas com múltiplas vivências, estados, sentires, personalidades, identidades e interseccionalidades. Existem, sim, amores, tantos amores quantas pessoas, relações e suas combinações. Um amor de multiplicidades, infinito na sua forma, infinito na sua própria causa. É um amor que só depende de quem ama e é amado.

Nesta forma própria de sentir amor, venho-me descobrindo nas múltiplas camadas de sentimentos e acções que daí decorrem. Assim, deixou de me fazer sentido classificar estas formas de sentir, mas tornou-se necessário deixar que elas pudessem ser fluídas, de vários níveis e que pudessem usufruir da sua própria dinâmica de ser. Todas as pessoas, por várias razões vêm a sua dinâmica interior evoluir em vários sentidos ao longo do tempo, porque não as próprias relações que estabelecem? Estas dinâmicas podem incluir variadíssimas combinações entre níveis e dimensões relacionais. Transformam-se, mutam, envolvem no espaço-tempo, nas dimensões emocionais, nas dimensões físicas, na distância e na proximidade. Não são apenas espelhos da nossa existência, das nossas dificuldades e dos nossos medos.

O que é para mim vivenciar-me como anarquista relacional? É existir em pleno nas minhas relações, daquilo que é criado e construído, daquilo que pode atingir mudança e daquilo que pode atingir estados. Não faz de mim uma pessoa relacionalmente mais segura, faz de mim apenas eu. Faz de mim alvo dos meus próprios medos, das minhas próprias fragilidades, mas também alvo das minhas próprias responsabilidades e conquistas, derrotas e vitórias. Porque no fim todas as relações são relações, porque eu e tu, eu e nós, tu e vós, são tão importantes quanto eu. As relações que por mim passaram e passam, desde o sorriso de bom dia com a pessoa estranha do café até aquilo que tradicionalmente se refere à intimidade, à validação relacional, são tão importantes como a minha própria existência nelas: a pessoa que recebeu um sorriso, a pessoa que comigo esteve intimamente.

Deixo esta reflexão, pessoal apenas, porque no fim, amores se transformam sempre em amores.

Dani

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