October 19, 2019

Acordo pela manhã, conto até três na esperança de que tenha um acordar mais ligeiro, abro os olhos. Olho em meu redor, a cama, os lençóis, a colcha… os gatos. A vida que existe nesta casa, os gatos. O relógio marca 5 da manhã, o corpo dói, o corpo sente-se cansado… a cabeça, já num pântano de existência. Prometo-me dormir mais um pouco, pelo menos até às 7… não consigo. Estou agitada, muito agitada, mas simultaneamente parada, estafada. Rebolo na cama, de um lado para o outro, grito para dentro, choro sem lágrimas. A dor intensifica. O cansaço é mortífero.

Depressão

Assim chega pouco mais das 7 da manhã, com a coragem de quem luta contra a morte, levanto-me. As pernas tremem. O corpo abana. A cabeça incha de tonturas. Enfrento o chão, enfrento o corredor… chego à sala e volto-me a sentar, não aguento mais de pé. Respiro fundo. Deito-me novamente. A respiração torna-se acelerada. Fecho os olhos. Deixo-me ficar uns minutos… o tempo passa e continuamente deitada, ofegante, paralizada.

Assim começam as minhas manhãs, assim começa o meu dia. Cansada e desesperada. Aflita.
Assim começam as minhas manhãs, presa no meu próprio mundo.
Assim começam as minhas manhãs, desconectada com a realidade.

Escrevo este texto e a minhas mãos pesam, pesam imenso. Custa-me cada pressionar, cada movimento. Como se por cada pressionar de tecla, tivesse de levantar uma tonelada de rocha. A minha cabeça gira em redor e eu não a consigo acompanhar. Já me perdi nas minhas palavras.

Quero acreditar que irei ficar melhor, quero acreditar que mais uns dias e estarei bem, quero acreditar que é apenas uma fase, uma fase má. Porém, os dias custam, custam imenso, cada gesto, cada decisão, cada fala.

Perdi-me na mensagem. As imagens estão continuamente a passar, a acelerar, a fugir, não as consigo agarrar, concentrar. São imagens, memórias, sentires, estares, visões, cheiros, tatos, barulhos, são contínuas passagens. São contínuas viagens, no presente, no futuro e no passado. Viajo para aqui e para ali, não fico muito tempo, apenas o suficiente para sentir a intensidade, volto, mas vou outra vez, agora para outro lugar. Os lugares são imensos, as paragens são rápidas e intensas. Perdi-me outra vez.

Respiro fundo, cada vez mais fundo. Estou a tentar ouvir-me. Mas não me consigo ouvir, ouço tudo. Oiço a estática, oiço o respirar dos gatos, ouço o senhor lá de baixo a passar, oiço a vizinha a conversar, ouço os carros, oiço a criança que caiu no chão, ouço… os meus olhos alternam entre locais, entre pontos, corro a sala, procuro referència. A minha sala são todos os mundos em simultâneo, agarro-me como posso, não quero voltar a viajar. Perdi-me outra vez.

Fecho os olhos por dez minutos, preciso de me recolocar. Preciso sentir-me sentada no sofá novamente. Preciso descer. Coragem, eu consigo. Vou conseguir. Preciso conseguir.

A minha mente caminha entre dois pólos… o pólo da velocidade, onde não consigo encontrar nada, e o pólo da apatia, onde não consigo colocar nada. Não tenho meio termo. Viajo novamente. Volto. Respiro fundo. Sinto-me a bloquear, sinto-me a desligar. Sinto-me…

Afago o cabelo, respiro… não consigo mais… quero voltar para o escuro, quero apagar as luzes e encolher-me e esperar que venha um novo dia… não consigo mais…

Dani

Imagem: Depressed - Denkrahm

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