Hoje fica assinalado +1 dia, +1 vitória, +1 conquista. Hoje, +1 passo para uma sociedade mais justa, uma sociedade que é de todos, uma sociedade constituída por cada um, feita para todos. Assiná-la-se hoje, o dia em que se votou a favor da coadopção por parte de casais homossexuais. O jornal Público destaca a notícia aqui, com o título “Portugal torna-se o quinto país a aprovar co-adopção por casais homossexuais”.

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Depois das notícias (aqui e aqui, in Público) que correram o mundo inteiro foi claro que, apesar de estarmos em pleno século XXI, ainda existe alguma controvérsia em relação a esta questão. Mais do que tudo, é uma questão humana. Independentemente do que eu penso (apesar de já ter participado “em certa parte” numa acção de sensibilização, como apresentei aqui), penso que é um valor que nos toca a todos.

Segundo a notícia publicada, o projecto de lei (proposto pelo PS) passou com 99 votos a favor, 94 contra e 9 abstenções (votaram 202 de 230 deputados). PSD e CDS deram liberdade de voto. A diferença foi mínima, mas o que conta é que foi aprovada, falta esperar pela votação final global e a promulgação do Presidente da República. As propostas do BE e PEV sobre adopção plena foram reprovadas.

Apesar de ter sido uma questão debatida em sede parlamentar, votada pelos vários partidos com participação, penso que esta é uma questão transversal à política. Não é uma questão que toca particularmente a esquerda, nem a direita de um ponto de vista do Ser Humano. É uma questão humana, não tem partido. Vota-se pelas leis, não se vota pelo sentimento, a essência do Humano e da sua estrutura enquanto individuo. Os partidos estão cheios de divergências, isso é a política, de uma ponta à outra (não dando preferência à ordem) as questões são muitas. No fundo, todos são humanos.

Mais do que posições políticas vincadas, por vezes, o que me impressiona são as pessoas, todas no geral. As opiniões não são consensuais e divergem ainda mais do que na própria política. Às vezes isso assusta-me. Hoje foi um dia de extrema felicidade para muitos, mas para outros, muito ódio. Dado que sou a favor desta lei, não posso ser hipócrita e dizer que não me faz alguma confusão, ainda que entenda a posição das pessoas. As pessoas são diferentes, crescem em meios muito diferentes e acabam com visões da vida, do mundo, é uma questão muito pessoal. Da mesma maneira que é difícil julgar alguém por sentir é, também, difícil julgar por não sentir. É uma questão estrutural do ser.

Muitas vezes, a realização de que o nosso modo de viver não é único assusta-nos. Ataca a nossa própria capacidade de sobrevivência, surge a questão do próprio sentido, do percurso… a segurança. Trilhar por caminhos incertos, desconhecidos, é difícil. À sua maneira, todas as pessoas acreditam que o mundo pode ser melhor, ingenuamente poderá-se pensar nisso. Mas às vezes, acho um infortuno uma pessoa não ser capaz de sair da sua própria esfera sentimental, chegar ao outro. Usam-se argumentos, muitas vezes falaciosos, sobre a incapacidade de construir uma vida, de preparar uma vida e tornar essa vida uma vida Boa, genuína. A verdade, ninguém sabe. O que nós sabemos são percursos, são situações. Existe um percurso histórico é verdade, conhece-se parte, não todo.

Não acredito em soluções mágicas, ninguém tem a fórmula da vida. Argumenta-se usando consecutivamente o “valor da descendência natural, a linhagem da natureza”, quem é que comenta e diz isto? As mesmas pessoas que não se importam de continuar a explorar os recursos naturais da própria terra onde vive, levando-a à falência da própria humanidade? São as mesmas pessoas que são os primeiros a achar que nós “humanos” somos um ser superior a todos, sem qualquer predador, protegidos pelas nossas casas, destruindo a ordem da natureza? O mundo avança, as pessoas evoluem.

Felizmente, hoje, é mais fácil falar-se do que se sente. Durante muito tempo isso não foi possível. O valor humano é importante e sobretudo, a compreensão pelo outro. Argumenta-se sobre a contextualização da criança, a sua suposta “confusão”, sobre o facto de ter dois pais ou duas mães. Mas quem impõe que isso é mau? É “a evolução da natureza” que não permite? É a “natureza” que na vida real não permite o acolhimento afectuoso de qualquer animal por outro? São os seres que pensam “eu só posso ter afecto por um casal”? Ou somos “nós”, todos, enquanto sociedade que impomos isso enquanto valor sagrado, como princípio da continuidade, como ordem natural do universo? Não seremos nós que estamos a batalhar contra a própria natureza do homem quando dizemos que não ao afecto? Poderia continuar aqui a levantar questões… muitas questões. Não me cabe a mim fazê-lo, cabe a cada um olhar o mundo e entendê-lo, cabe a cada um perceber o que na verdade acontece, pode acontecer ou aconteceu. Somos nós que fazemos a sociedade.

Entre as questões do próprio sentimento humano, existe uma muito importante. Amar. Deixando apenas uma pergunta. Quão acham ridículo amar, querer ser amado, mas não deixar o outro amar e não deixar o outro ser amado? Não o deixar Ser.

Por fim, após este desabafo, deixo apenas a minha tristeza por esta notícia aqui. Um sol de pouca dura. A inconstituicionalidade da própria identidade humana. Triste, é a única palavra que me resta. Talvez um dia exista o bom senso nestas mentes pequenas, muito pequenas, independentemente da cor que vestem.

Daniel Bento

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