Estas últimas semanas têm sido emocionalmente poderosas. Durante a última semana estive num training em Itália, no meio da floresta, longe da comunicação diária a que estou sujeita. Apenas, e só, com todos os elementos do grupo que estavam presentes. Pessoas de várias nacionalidades. Tocou-me a facilidade de troca de experiências que aconteceu, tocou-me poder falar de mim sem receios, tocou-me poder expressar os meus sentimentos em relação a várias questões sem ser julgada... mesmo sendo um espaço com diferentes pessoas - senti-me segura como não me sentia há muito tempo num espaço misto. Aproveitei também para ter os meus próprios momentos de reflexão. Uma das coisas que achei bastante positiva foi que, apesar de os dias serem bem estruturados numa vivência comunitária, me foi possível ter o meu espaço próprio onde podia canalizar as minhas energias e repensar em muitas questões do meu dia a dia.

No fim de semana de 10 de Março fui ao Porto com o objectivo primário de visitar, pela segunda vez, a feira erótica - já lá tinha estado em 2017. A expectativa não era muito alta depois do que assisti o ano passado, mas dado que havia uma probabilidade do tema da feira abordar questões trans, decidi ir este ano. No entanto havia o receio da representação trans da feira fosse apenas um fetish e não mais do que isso. É sempre um desafio entender de que modo este espaço tenta ser inclusivo, ou não, e de que modo poderá ser proporcionada uma boa ou má experiência. Porém, dá-me a entender que a mecânica da feira não muda praticamente nada de ano para ano.

Oiço música, os meus dedos mexem ao seu ritmo, batem na mesa e estalam entre si. Sinto-me pensativa e contemplativa. A calma invade-me o corpo e o sorriso antecede a própria vontade de sorrir. Estou feliz, um feliz de estar, um feliz de entendimento de mim, de resolução e de permanência. Não sabia como começar este texto, mas não me pareceu importante saber começar, mas sim expressar. Porque o momento é de expressão, é de sentir, não é de exposição ou ensinamento. É um texto de mim para mim, mas sobretudo do mundo para a minha alma. Porque na escrita o mundo também comunica comigo. Permite-me.

Lembro-me, como se fosse hoje, de há uns anos atrás estar num processo de recuperação mais doloroso, muito mais doloroso, do que estou nos dias de hoje. Mais pesado, mais violento, mais esgotante. Não era só a minha mente que estava em cacos, mas era também eu, fisicamente, que em cacos estava. Este processo foi longo, ou relativamente longo... o tempo demarca-se muitas vezes pelas expectativas e não pelo tempo do relógio. Durante esse tempo, algo permanecia: a dor. Muito ou pouco tempo, a dor estar lá, permanente.

E assim começou um novo ano, 2018 - com uma Super Lua. Estou sentada na areia da praia a escrever e a ver as ondas do mar, um período de reflexão pessoal que me é importante, necessária e essencial. O som do mar acalma-me e relaxa-me e é, sem sombra de dúvida, um magnífico mecanismo para pensar em segurança sobre os últimos tempos e, com isso, projectar um novo ciclo. Um novo ciclo que urge e que promete bastantes mudanças.