Lembro-me, como se fosse hoje, de há uns anos atrás estar num processo de recuperação mais doloroso, muito mais doloroso, do que estou nos dias de hoje. Mais pesado, mais violento, mais esgotante. Não era só a minha mente que estava em cacos, mas era também eu, fisicamente, que em cacos estava. Este processo foi longo, ou relativamente longo... o tempo demarca-se muitas vezes pelas expectativas e não pelo tempo do relógio. Durante esse tempo, algo permanecia: a dor. Muito ou pouco tempo, a dor estar lá, permanente.

E assim começou um novo ano, 2018 - com uma Super Lua. Estou sentada na areia da praia a escrever e a ver as ondas do mar, um período de reflexão pessoal que me é importante, necessária e essencial. O som do mar acalma-me e relaxa-me e é, sem sombra de dúvida, um magnífico mecanismo para pensar em segurança sobre os últimos tempos e, com isso, projectar um novo ciclo. Um novo ciclo que urge e que promete bastantes mudanças.

Sentada à secretária, os meus dois pequenos vagueiam pela sala e, agora deitados, olham para mim na escuridão da sala. Luz fusca que deixa as paredes marcadas de sombras e movimento. As paredes ganharam vida, a minha sombra tem vida. Sinto que estou numa fase de mudança e de uma mudança essencial para o meu futuro, não só para os próximos dias, mas aquele futuro que todas as as pessoas falam - do médio e longo prazo. Simultaneamente ouço algumas músicas que já não ouvia há uns três ou quatro anos, nostalgia? Talvez. Porém, são elementos da minha vida continua, do meu espaço e do meu tempo, das minhas passadas pelo caminho que percorro.

Já passa das 24h. Não é tarde, mas também não é cedo. Escrevo porque estou triste, escrevo porque preciso de escrever. Escrevo porque me entristece, escrevo porque me esvazia, escrevo porque me limpa a alma. Estou melancólica, a música não está certa, a luz está errada, os pequenos passeiam-se pela luz fusca da noite, brincam, celebram os seus momentos de paixão mútua. Alegra-me ver os pequenos - ainda que me me venham de vez em quando roubar as bolachas de milho - alegra-me.

Queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê... tenho um bloco cheio de notas com textos e assuntos que gostava de desenvolver, porém, a minha falta de criatividade tem dificultado esta tarefa. No entanto, todos os dias acontecem-nos coisas e, muitas vezes, são essas mesmas situações que nos levam a desenvolver o nosso lado emocional e criativo. E, a propósito dos vários trajectos que tenho feito, a veracidade é um dos denominadores comuns de quase todas as partes desse percurso. A veracidade no seu sentido lato, construído e assimilado. Uma veracidade que interroga a minha própria existência no mundo, como se existir não fosse suficiente.