Sentada à secretária, os meus dois pequenos vagueiam pela sala e, agora deitados, olham para mim na escuridão da sala. Luz fusca que deixa as paredes marcadas de sombras e movimento. As paredes ganharam vida, a minha sombra tem vida. Sinto que estou numa fase de mudança e de uma mudança essencial para o meu futuro, não só para os próximos dias, mas aquele futuro que todas as as pessoas falam - do médio e longo prazo. Simultaneamente ouço algumas músicas que já não ouvia há uns três ou quatro anos, nostalgia? Talvez. Porém, são elementos da minha vida continua, do meu espaço e do meu tempo, das minhas passadas pelo caminho que percorro.

Já passa das 24h. Não é tarde, mas também não é cedo. Escrevo porque estou triste, escrevo porque preciso de escrever. Escrevo porque me entristece, escrevo porque me esvazia, escrevo porque me limpa a alma. Estou melancólica, a música não está certa, a luz está errada, os pequenos passeiam-se pela luz fusca da noite, brincam, celebram os seus momentos de paixão mútua. Alegra-me ver os pequenos - ainda que me me venham de vez em quando roubar as bolachas de milho - alegra-me.

Queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê... tenho um bloco cheio de notas com textos e assuntos que gostava de desenvolver, porém, a minha falta de criatividade tem dificultado esta tarefa. No entanto, todos os dias acontecem-nos coisas e, muitas vezes, são essas mesmas situações que nos levam a desenvolver o nosso lado emocional e criativo. E, a propósito dos vários trajectos que tenho feito, a veracidade é um dos denominadores comuns de quase todas as partes desse percurso. A veracidade no seu sentido lato, construído e assimilado. Uma veracidade que interroga a minha própria existência no mundo, como se existir não fosse suficiente.

Sou anarquista relacional e, mais do que para as outras pessoas e para a sociedade no geral, devo reconhecê-lo para a minha própria pessoa. Sou, desde há alguns anos, assumidamente pessoa poliamorasa mas em si (tal como, há mais alguns anos, o conceito de monogamia), esta visão criou-me alguns constrangimentos na forma como lia os meus sentimentos. Não por ser incompatível comigo, mas devido à minha própria leitura do mundo e das relações que tinha e tenho, sejam elas em que dimensão e de que dimensão.

No dia 25 de Março, participei numa sessão partilhada no Festival Zen - um festival para Celebrar a Energia da Primavera, com o tema "Biodiversidade Humana e Género", mas não quero falar desta sessão ou do festival, no entanto fez-me lembrar algo que gostava de ter escrito há imenso tempo e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Um tópico sobre as minhas interseccionalidades, sobre a minha própria vivência enquanto pessoa não-binária.