Sou anarquista relacional e, mais do que para as outras pessoas e para a sociedade no geral, devo reconhecê-lo para a minha própria pessoa. Sou, desde há alguns anos, assumidamente pessoa poliamorasa mas em si (tal como, há mais alguns anos, o conceito de monogamia), esta visão criou-me alguns constrangimentos na forma como lia os meus sentimentos. Não por ser incompatível comigo, mas devido à minha própria leitura do mundo e das relações que tinha e tenho, sejam elas em que dimensão e de que dimensão.

No dia 25 de Março, participei numa sessão partilhada no Festival Zen - um festival para Celebrar a Energia da Primavera, com o tema "Biodiversidade Humana e Género", mas não quero falar desta sessão ou do festival, no entanto fez-me lembrar algo que gostava de ter escrito há imenso tempo e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Um tópico sobre as minhas interseccionalidades, sobre a minha própria vivência enquanto pessoa não-binária.

Olho a folha de papel, penso nas linhas que me comprometo a escrever, mas ainda não sei o que caminho que vão tomar e, muito menos, o seu final. Olho a folha de papel e apenas penso nas linhas que me acredito querer escrever. Relembro a minha cadeira e a minha secretária, a minha caneta e o meu bloco, o teclado e o monitor, apenas. As linhas escrevem-se direitas, mas eu pretendo escrevê-las no espaço e tempo para o qual existem. As linhas escrevem-se em sequência, mas eu pretendo escrevê-las de acordo com a história que relatam.

Gostava de pensar que a minha identidade se poderia expressar livremente ao longo do tempo. Gostava de pensar que isso seria uma realidade, mas infelizmente não o é. A minha expressão é limitada pela minha saúde, é limitada pela minha capacidade de viver em união comigo própria.

O meu percurso continua, árduo e ainda confuso. Uns dias estou melhor, sinto-me alegre, pronta para a acção e para o movimento, tenho outros… outros em que não me apetece levantar da cama. Outros em que me apetece isolar do mundo e esquecer que estou por cá. Outros que fico. Esta é uma fase complicada, estou a ser dominada pelos momentos depressivos. Pelos momentos de tristeza crónica. Procuro em cada coisa o melhor que consigo, procuro felicidade em bocadinhos para que me sinta melhor ou, pelo menos, um pouco melhor. Este percurso é necessário para recuperar, é preciso ir tentando aos poucos, saber como agir, como actuar.