Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. O tecido é novo e o seu peso é acessível. Facilmente transportável. Facilmente se coloca no bolso e facilmente se esconde na carteira. Também a tela consegue cobrir uma parede por inteiro, ou até mesmo o chão de um armazém. É apenas uma tela insignificante, mas que acompanha-me por onde vou. Porém, esta tela nunca deixou de ser branca. Depois de milhares de milhões de quadros pintados, coloridos, rasgados, esfaqueados, queimados, destroçados... a tela continua a ser branca.
Com o fim do ano vêm momentos de reflexão e balanço do que foi o ano que passou. Se o ano passado sentia-me perdida na minha vivência, este ano 2018 revelou-se um ano de descobertas interiores, mudanças de paradigma e relacionamentos saudáveis.
A fonte da batalha jorra em rios de cores de cheiros vários que escorrem montanha acima. Até ao seu cume. Até ao seu cume, estes rios debitam energia como se nada mais valesse a pena. O mundo para de rodar, o sol deixa de nascer e a lua também. Ambos parados, estáticos, no céu, esperando o momento de voltar a andar, de voltar a caminhar pelos seus próprios trilhos. No cume os rios continuam a chegar, ditos, brilhantes, conhecedores. Os rios chegam, como informação que trilha por toda a espacialidade e temporalidade do infinito que se confina num espaço bastante pequeno.
Eram uns dias de sol, um sol branco, forte. Eram uns dias de céu azul, um azul suave, limpo. Eram uns dias em que as árvores pararam em escuta do mar. Uns dias em que mais tempo e menos tempo não interessava, apenas o sabor do ar que ventilava pelos caminhos terrenos. Aprender a saborear cada minuto e cada passagem, cada estado. Aprender a estar num dado ponto. Um ponto que não se reconhece no espacialmente e temporalmente, é só um ponto. Estar, por apenas estar.
Às vezes sinto tristeza, uma tristeza muda e surda. Uma tristeza calada, uma tristeza sem voz nem coro. Uma tristeza. Sinto porque não posso, nem sempre posso e porque muitas vezes não posso. Quero estar e não consigo. Mas a cada momento, uma tristeza mais. Mais uma pessoa, mais um desrespeito, mais uma morte. Sinto-o presente, como meu e teu, mas simultaneamente nosso. Porém, sinto que não consigo lá estar, não chego a tempo... não fui capaz... perdi mais uma vez.